Frankenstein de Guilherme Del Toro é como a maioria dos filmes dele: soturno e poético. Mexe com a gente de um jeito delicado. Se alguém acha que é filme de terror ou de monstro, vai se surpreender. É uma história de abandono. De um criador que foi brincar de Deus, mas não gostou do resultado e, com isto, o rejeita. A criatura, por sua vez, se torna carente, perdida em um mundo que não a entende e ela, muito menos a ele.
Não sabe o que é mal ou bem. Não percebe que ser acorrentada é algo ruim. Não entende que sua figura causa repulsa. É a história de alguém que é assustador e invencível, mas que não usufrui deste poder. Sofre com ele. Em certo momento, ele diz a seu criador: “Você me negou também a morte. E a escolha é o presente da alma...”. Uma criatura melancólica condenada a uma vida de rejeição e que não planeja assumir o papel do vingador. Ele só quer uma companhia.
Jacob Elordi faz o papel da criatura muito bem. Irreconhecível, com um aspecto asqueroso, mas, ao mesmo tempo humano, ele tem um olhar frágil e gestos meigos. Sua solidão involuntária dói. Entendemos seu desespero. Percebemos que o monstro ali é o Dr. Viktor Frankenstein (Oscar Isaac). Conforme afirma Elizabeth (Mia Goth), noiva de seu irmão William (Felix Kammerer): “só monstros brincam de Deus, Barão”.
O filme carrega no preto, no branco, no vermelho e no verde. Não à toa, a mãe de Viktor usa vermelho e Elizabeth aparece de verde em cenas essenciais. As cores dão rimas às cenas. Ele é divido em duas partes que são narradas a partir do final, já no Polo Norte: A história de Viktor e a história da criatura. É sempre muito bom ver dois lados de uma história. Nos ajuda a refletir com mais clareza. Se a narrativa de cada um é contada de um ponto de vista não isento, temos, que, a partir delas, formular o nosso.
Guilherme Del Toro, em Pinóquio, trouxe um boneco que nunca se torna um menino de carne e osso; é sempre um boneco de madeira que fala. E, por isto, chama a atenção. É tratado como pária. Hostilizado por todos. Gepeto também é duro com ele. Ele perde seu filho por causa da explosão de uma bomba durante a Guerra. E esculpe Pinóquio em um momento de muita dor. O boneco é mais que tudo uma expiação.
De certa forma, a história se assemelha a de Frankenstein: temos também a criatura e o criador. A criação vem de um lugar de dor para preencher um vazio que, afinal, não pode ser preenchido. Quando o criador percebe isto, rejeita o que criou. E esta rejeição transforma as criações em excentricidades que existem para ser rechaçadas ou exploradas. Com o olhar do diretor, toda esta ficção torna-se humana. Mas o que caracteriza a verdadeira humanidade? O corpo físico? Ou a tão misteriosa alma? A criatura ou o criador? Os que rejeitam ou os que buscam amor?

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