"A Baleia” conta a história de um professor de redação recluso e com obesidade severa que tenta se reconectar com sua filha adolescente e se entender com o passado. O filme ganhou o Oscar de Melhor Ator para Brendan Fraser e o de Melhor Cabelo e Maquiagem em 2023.
A única cena externa em plano aberto do longa é a primeira, que mostra um ônibus parado em uma estrada vazia e um céu bem carregado, mas com um brilho de sol. Depois disso, seremos levados para o ambiente soturno do apartamento do professor Charlie (Brendan Fraser) e só veremos o céu, quando a porta do apartamento se abre e ele aparece como um vislumbre, sempre longe, quase inalcançável. Para Charlie, parece ser...
O professor dá aulas de redação a distância para universitários e nunca abre a câmera. Sempre diz que está quebrada. É emblemática a cena em que vemos na tela de um notebook vários alunos com a câmera aberta, mas, no centro, onde devia estar o rosto do professor, só vemos um quadrado preto. A câmera se aproxima até enquadrar apenas ele e, então, surge o letreiro: A Baleia.
O nome se remete à condição física de Charlie, que pesa mais de 250 kg, mas também a sua obsessão por um ensaio sobre o livro Moby Dick. Ele lê esta redação várias vezes durante o filme e, ao final, descobrimos o motivo.
A Baleia é dirigido por Darren Aronofsky, conhecido por filmes como Cisne Negro e Mãe!, que trabalham temas como obsessão com consequente entrega física e mental. Sobre o diretor, a crítica Isabela Boscov comentou: "Ele faz filmes que dividem opiniões e que convidam para reflexão". Não é diferente com este.
Assistimos a 5 dias na rotina de Charlie, que não consegue sequer pegar uma chave no chão sem ajuda. Sua vida se restringe aquele apartamento. E nós estamos ali com ele. Baseado numa peça teatral, a história tem poucos personagens. Thomas (Ty Simpkins), um missionário que aparece na casa de Charlie naquela semana; a enfermeira Liz (Hong Chau), que está sempre por lá; a filha Ellie (Sadie Sink) que é convidada por ele. E a ex-esposa Mary (Samantha Morton), que aparece em busca da filha. Eles surgem nesta ordem na medida em que os dias passam. Charlie busca um perdão pelas escolhas que fez. No entanto, parece buscar, principalmente, compreensão; até por não lutar pela vida.
Ao longo do filme, lembrei-me de O Vendedor de Passados, no qual há um personagem que foi obeso e compra um passado para poder viver um futuro. Ernane (Anderson Müller), quando tinha 08 anos, pesava 60 kg; quando tinha 14, pesava 80 kg; quando tinha 16, pesava 130 e não saía mais de casa. Com 34 anos, fez cirurgia bariátrica. E, então, quis forjar a vida que não teve. Em A Baleia, vemos Charlie, que teve um passado, sempre confrontado e relembrado durante a história, mas não quer um futuro. Almeja apenas um acerto de contas. Uma espécie de perdão. E, a julgar pela cena final, parece que conseguiu.
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