A Invenção de Hugo Cabret
Hugo Cabret (Asa Butterfield) tem uma forma interessante de pensar. Ele imagina que o mundo é uma grande máquina e, por isso, ele não poderia ser uma peça extra. Numa engrenagem, tudo tem uma função e a de Hugo não poderia ser mais encantadora. Em busca de consertar um autômato, atividade que seu pai deixou inacabada antes de morrer, Hugo vai reviver uma história que merece ser contada. A história de George Méliès (Ben Kingsley).
George Méliès, o cineasta precursor dos efeitos especiais que viu na imagem em movimento uma real forma de se contar histórias e uma oportunidade de fazer mágica e encantar, já estava esquecido quando Hugo o conheceu. Ao reformar o autômato, Hugo faz reviver Méliès. E, talvez, seja isso que Scorsese faça com o cinema e com o 3D neste filme. Aqui, este efeito é mais que um simples efeito. Scorsese faz mágica, encanta e cria uma finalidade para ele no discurso além de ser... 3D. Ele aproxima, assusta, emociona, diz. Como quando o guarda da estação se aproxima de Hugo para interrogá-lo e seu rosto se aproxima da gente tão ameaçador como deve ser para Hugo. Ou quando Isabelle (Chloe Grace Moretz) cai na estação e todas aquelas pessoas apressadas começam a atropelá-la. Sentimos o tumulto. Somos pisoteados também. Por causa do 3D, a profundidade de campo vem com mais camadas. Um bom exemplo disso é a bela cena em que temos Hugo em primeiro plano, olhando por uma grade, atrás dele, avistando o guarda conversando com o motorista do camburão e ainda mais ao fundo, a Torre Eiffel.
Tanto em “Hugo” quanto em “O artista” há sonhos incluídos. O cinema pode falar de sonho, mas pode também falar da realidade. O filme transita fácil entre esses dois extremos. Hugo assiste a realidade ao observar as pessoas que passam pela Gare du Nord, onde vive. Ao centrar sua trama numa estação de trem e pontuar as pequenas ações que acontecem ali por meio das observações do protagonista, Scorsese também homenageia os irmãos Lumière, que buscaram “capturar” o real com suas imagens.
Assistir ao “ A invenção de Hugo Cabret” é reviver o encantamento que os espectadores de Lumière e Méliès tiveram no início do século. É revalorizar uma arte e uma forma de discurso tão cheia de alternativas que se corre o risco de utilizá-los sem propósito. O livreiro, no filme, tem um propósito: “Mandar o livro a um bom lar”. Parece que o propósito de Scorsese é o mesmo.
Assista-me
Este é um blog sobre cinema. Mais especificamente sobre filmes de que eu gosto aos quais assisti no cinema. Por isso, seu nome é Assista-me! Escrevo tais artigos desde agosto de 2006 e pretendo continuar escrevendo pelo menos 01 vez por mês. Espero, com o blog, indicar tais filmes e também motivar uma reflexão sobre eles.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Os Descendentes
Os Descendentes (2012)
Li que a corrida de Matt King (George Clooney) em “Os descendentes” seria a antítese da corrida “tecnicamente perfeita” de Tom Cruise em Missão Impossível. Não há melhor descrição. A correria de Matt é desesperada. Uma corrida atrás do que se perdeu. Uma pressa que, muitas vezes, não é mais necessária. Ele já não se lembra da última vez em que buscou sua filha Scottie (Amara Miller) na escola. E não entende por que não comprou o barco que sua esposa Elizabeth King (Patricia Haste) tanto queria.
Elizabeth está entre a vida e a morte no hospital e Matt ,que sempre trabalhou demais, vê-se às voltas com suas filhas de 10 e 17 anos. De repente,ele começa a descobrir o que passou despercebido nos últimos anos. Sobre sua família, ele conclui, enquanto viaja pelo Havaí, onde mora: “Somos como um arquipélago. Cada um de nós é uma ilha, morando na mesma casa.”
Matt corre para esse tempo que não volta. Mas também corre para aquilo que pode recuperar; para o que ainda não viveu. E, aos poucos, poderá alcançar algumas “chegadas” pretendidas. Não todas, claro.
O protagonista, de imediato, esclarece que o Havaí não é o paraíso como todos pensam. Nenhum lugar é. Temos nossos dramas onde quer que estejamos, Havaí ou China; mar ou montanha. O que temos de fazer é prestar mais atenção ao que está em volta para não precisarmos correr demais quando o acaso intervir. Ao final, somos a quarta pessoa sentada na sala com Matt e as filhas. E isso nos faz tão bem quanto a ele.
Li que a corrida de Matt King (George Clooney) em “Os descendentes” seria a antítese da corrida “tecnicamente perfeita” de Tom Cruise em Missão Impossível. Não há melhor descrição. A correria de Matt é desesperada. Uma corrida atrás do que se perdeu. Uma pressa que, muitas vezes, não é mais necessária. Ele já não se lembra da última vez em que buscou sua filha Scottie (Amara Miller) na escola. E não entende por que não comprou o barco que sua esposa Elizabeth King (Patricia Haste) tanto queria.
Elizabeth está entre a vida e a morte no hospital e Matt ,que sempre trabalhou demais, vê-se às voltas com suas filhas de 10 e 17 anos. De repente,ele começa a descobrir o que passou despercebido nos últimos anos. Sobre sua família, ele conclui, enquanto viaja pelo Havaí, onde mora: “Somos como um arquipélago. Cada um de nós é uma ilha, morando na mesma casa.”
Matt corre para esse tempo que não volta. Mas também corre para aquilo que pode recuperar; para o que ainda não viveu. E, aos poucos, poderá alcançar algumas “chegadas” pretendidas. Não todas, claro.
O protagonista, de imediato, esclarece que o Havaí não é o paraíso como todos pensam. Nenhum lugar é. Temos nossos dramas onde quer que estejamos, Havaí ou China; mar ou montanha. O que temos de fazer é prestar mais atenção ao que está em volta para não precisarmos correr demais quando o acaso intervir. Ao final, somos a quarta pessoa sentada na sala com Matt e as filhas. E isso nos faz tão bem quanto a ele.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
O Artista
Antes de mais nada, “O Artista” é uma grande homenagem ao cinema. Como “Cantando na chuva” e “Crepúsculo dos Deuses”, ele trabalha com a metalinguagem para nos contar a história da transição do cinema mudo para o falado e de como artistas de grande sucesso ficaram para trás nesse caminho. A diferença é que “O Artista” é um filme mudo. E, claro, pela própria lógica da evolução cinematográfica, preto e branco.
O filme tem início em 1927, na estreia de mais um filme de George Valentim (Jean Dujardin), grande astro do cinema mudo. Mais um tremendo sucesso. George, no auge de sua glória, agradece com vaidade. Na saída do teatro, Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma aspirante a atriz, pede o autógrafo de seu ídolo. Seus caminhos se cruzarão durante toda a estória e, de certa forma, seus papéis se trocarão. Não por acaso, 1927 foi o ano de lançamento de “O cantor de Jazz”, o primeiro filme falado do cinema. Mais alguns anos e tudo mudará na dinâmica dessa indústria.
Em1929, o estúdio em que Valentim trabalha já não produzirá filmes mudos. Enquanto isso, George afirma que ninguém gostará das produções sonoras. Mais tarde, ele sonha que coloca um copo na penteadeira e ouve seu vidro, batendo na madeira. Ele começa a perceber o som das coisas, a sonoplastia, como é que tudo tem som: o vento nas plantas, o riso das pessoas. E, principalmente no cinema, uma pena chegando ao chão pode ter o som de uma bomba explodindo.
E é exatamente como uma bomba que o som atinge a carreira de Valentim. Ele não quer mudar. Tudo o que construiu está no cinema mudo. Enquanto isso, a evolução da carreira de Peppy Miller é demonstrada por uma sucessão de letreiros de filmes nos quais a atriz trabalhou. Seu nome vai subindo de posição e ela já não faz mais “a garota”, mas a “Mrs. X”. Até que seu nome é apresentado sozinho. Peppy sobe. George desce. Na cena em que eles se encontram no estúdio, ela está acima dele na escada, claramente, numa posição de ascensão
Sem falar nada, o diretor Michel Hazanavicius nos disse tudo. E assim é, muitas vezes, durante o filme. Quando George lança o longa que insistiu em produzir em tempos de cinema falado, o filme dentro do filme reflete a história de “O Artista”. O herói afunda na areia movediça. A heroína não pode salvá-lo. Quando Peppy observa Valentim atravessando a rua após uma ocasião particularmente triste, há, ao fundo, um teatro que anuncia “Estrela Solitária”. Naquele momento, tal descrição serve tanto para ele, quanto para ela.
“O Artista” não é saudosista. Essa evolução é natural e adaptar-se, sinal de amadurecimento. Com o som, vieram os musicais. E esta é a cereja do bolo deste filme encantador.
sábado, 23 de abril de 2011
Clipe do "Rio"
Pessoal,
Devo dar uma sumidinha... Mas é por uma boa causa. Estou grávida de 36 semanas de gêmeos! Sendo assim, meu cinema, que já tinha se resumido a 01 vez por semana, deve se espaçar bem mais... Pretendo voltar a escrever assim que organizar a minha rotina e a dos bebês. Deixo aqui o link do clipe de " RIO", com os primeiros dois minutos do filme. Trata-se de um desenho animado, e, como todos eles, é muito bem produzido, mas sempre traz alguns clichês. Mesmo assim, é de encher os olhos! O Rio está muito lindo! E não podemos nos esquecer de que tudo que está ali retratado não é gratuito, mas totalmente baseado nesta linda cidade que está aqui pertinho da gente!
http://www.youtube.com/watch_popup?v=ZZ81_Q0lYAM&vq=medium
Devo dar uma sumidinha... Mas é por uma boa causa. Estou grávida de 36 semanas de gêmeos! Sendo assim, meu cinema, que já tinha se resumido a 01 vez por semana, deve se espaçar bem mais... Pretendo voltar a escrever assim que organizar a minha rotina e a dos bebês. Deixo aqui o link do clipe de " RIO", com os primeiros dois minutos do filme. Trata-se de um desenho animado, e, como todos eles, é muito bem produzido, mas sempre traz alguns clichês. Mesmo assim, é de encher os olhos! O Rio está muito lindo! E não podemos nos esquecer de que tudo que está ali retratado não é gratuito, mas totalmente baseado nesta linda cidade que está aqui pertinho da gente!
http://www.youtube.com/watch_popup?v=ZZ81_Q0lYAM&vq=medium
terça-feira, 29 de março de 2011
O Concerto
No início de “O Concerto”, Andre Filipov (Alexei Guskov) assiste ao ensaio da orquestra do Bolshoi. Ele, antes, o prestigiado maestro, agora é o faxineiro do teatro. Durante o regime socialista, foi expulso sob a acusação de proteger judeus. Todo o grupo foi esfacelado e seus ex-integrantes tornaram-se motoristas de ambulância, vendedores de artigos contrabandeados, produtores de filmes pornôs, entre outros. No trabalho, Andre acaba interceptando um fax no qual a orquestra russa é convidada para uma apresentação no Teatro Chatelet e resolve reunir os antigos colegas para viajar no lugar da original. Está aí o mote desta comédia entremeada por dramas, poesia e boa música. Os músicos russos fazem exigências defasadas à direção do teatro francês: restaurantes que não mais existem e hotéis de luxo já decadentes. Eles têm a referência da Paris há 30 anos. Eles pararam e a França continuou. Com o concerto, aquele grupo estagnado finalmente continua. E, contagiados pelo brilho da solista convidada, relembram o próprio talento há muito esquecido.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Cisne Negro
"Cisne Negro" trata do nosso duplo. Aquele que a gente tenta esconder a qualquer custo. O filme é em si dicotômico, já que seu tema é o ballet, a beleza, mas sua atmosfera é sombria, claustrofóbica e degradante. Acompanhamos a trajetória de Nina (Natalie Portman), obsessiva e reprimida, ao se tornar a primeira bailarina do corpo de baile em que trabalha. Sua primeira apresentação: Lago dos Cisnes. O coréografo Thomas (Vincent Cassel) esclarece qual o problema que vê na dançarina: "Se você fosse só o cisne branco, seria perfeita. Mas, agora, me mostre o cisne negro, Nina. Eu nunca a vejo se deixar levar." Ela argumenta que quer ser perfeita e ele comenta: "perfeição não está apenas em ter o controle". O filme é muito centrado no rosto dos personagens, principalmente nela. Parece que a câmera busca a mesma coisa que Thomas: o que há de visceral em Nina. Nesta busca pelo cisne negro, a bailarina desenvolve sua esquizofrenia latente. E finalmente encontra a perfeição que tanto buscou. Pena que é um caminho sem volta.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Além da Vida
Em Além da Vida, acompanhamos três histórias unidas pelo mesmo tema: O que acontece quando morremos? Esta busca vira uma espécie de maldição para o médium George (Matt Damon), obsessão para o adolescente Marcus (Frankie McLaren) e uma fonte de mudança para a jornalista Marie (Cécile De France). Dirigido por Clint Eastwood de forma lenta e reflexiva, constatamos, juntamente com o diretor, quanta exploração, dúvidas e especulação existem em relação ao assunto. Eastwood não tenta nos dar uma resposta, mostra apenas os vários caminhos que alguém que sofre uma grande perda ou chega perto da morte pode vir a tomar. O fato é que não há o caminho certo. Em determinado momento, Marcus pergunta sobre seu irmão gêmeo a George: "Para onde ele foi?" O vidente responde: "Não sei. Mesmo depois de tantas comunicações, eu ainda não sei...". George afirma que "uma vida centrada na morte não é vida". Esta, para mim, é a grande "moral da história".
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