domingo, 21 de fevereiro de 2010

Preciosa

Nossa, ontem fui assistir ao "Preciosa". Como é triste... Chorei bastante. Mas não por que o diretor constrói todo um contexto para que a emoção venha, mas por que o contexto não precisa ser construído. A vida de Preciosa é aquela. Pronto. A meu ver, trata-se de uma história sobre o poder destrutivo da ignorância. Preciosa está terminando o primeiro grau e não sabe que D + I + A formam a palavra "dia". E, por não saber, não é capaz de perceber o  tamanho da crueldade de sua mãe. Para ela, a truculência sempre foi uma resposta normal. É bonito assistir às  transformações da protagonista e a sua redentora reação por meio da sua escrita e do desenvolvimento da sua capacidade de refletir. No caso do filme, não é o amor a resposta, mas a educação.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Vício Frenético

Certa vez, li que os filmes de Werner Herzog contêm ou heróis com sonhos impossíveis ou pessoas com talentos únicos em áreas obscuras. No caso do tenente Terence McDonagh (Nicolas Cage) em “Vício Frenético”, assistimos a um perfeito exemplo da segunda hipótese. Ele manda prender prostitutas, mas namora uma. Persegue traficantes, e é completamente viciado. Corrompe policiais, mas rouba as drogas que consome. Em meio à sua contravenção, ele resolve crimes. O diretor trabalha com situações extremas. E, apesar de permitir uma certa compaixão pelo tenente, já que explica a origem do seu vício; muitas vezes, chegamos a ponto de imaginarmos: Ah não! Aí, já é demais. Algumas pessoas, acharam graça no absurdo. A mim, ele incomodou. O mais interessante é que, para mim,  o final feliz seria que o tenente fosse preso.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

500 dias com ela

Branca Machado – 18/12/2009


“500 dias com ela” trata do eterno confronto entre expectativa e realidade. E do fato que, normalmente, nossas expectativas são sempre melhores que os acontecimentos. Nem por isso, devemos deixar de criá-las. Afinal, sonhar faz parte. O narrador (off) logo explica : “Esta é história de um garoto que conhece uma garota. Summer Finn era apenas uma outra garota. Exceto que ela não era.” Pelo menos para Tom...

No início, já se esclarece que não se trata de uma história romântica. É comum, verdadeira. E pode ser explicada do modo com que Summer (Zoey Deschanel) resume a Tom (Joseph Gordon-Levitt) por que seus antigos relacionamentos terminaram: “O que sempre acontece... a vida.”

Dirigido por Marc Webb, famoso diretor de vídeo clipes, o filme é repleto de pequenos truques que ajudam a contar a história. Narrativa não linear, animações, montagem paralela, ótima trilha pop. Os recursos contribuem com a narrativa e não são usados apenas por que é possível. Por exemplo, Tom vai a um evento e encontra Summer que o convida para uma festa na casa dela na outra semana. Ele cria fortes esperanças. A festa ocorre em montagem paralela. De um lado, a expectativa. De outro, a realidade.Na expectativa: ela o recebe com um beijo, fica com ele na varanda, fazem sexo.Na realidade: ela o recebe com um abraço amigo, ele está sozinho na varanda, ele bebe. A metade da realidade ocupa toda a tela quando Tom descobre que Summer tem um novo compromisso.

A partir daí, Tom não pode ver casais felizes. A fossa vem com tudo. Ele sozinho na rua vira um quadro em preto e branco. Sem muitas palavras, entendemos todo o processo interno que ocorreu com o protagonista durante e após a festa. Agora sim, pesou. Quantas vezes também já não fizemos isso? Criar expectativas para uma festa, evento, encontro, show e outros mais? Antecipar o que vai acontecer?

A vida surpreende, alegra, machuca, cura. E, de certa forma, podemos concluir o que Paul, amigo de Tom, descreve sobre sua namorada: “Robyn é melhor que a mulher dos meus sonhos. Ela é real.” Quando se está com a pessoa real, ela sabe. Sabe o quê? Sabe “tudo aquilo que ela não tinha certeza com uma outra pessoa.”

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Julie e Julia

03/12/2009

Julie & Julia não é uma obra-prima do cinema e seu formato parece com o de muitos filmes aos quais já vimos, mas sua estória merece ser contada. Isto porque assistimos a duas mulheres se descobrirem.Elas buscam e encontram aquela zona de conforto só delas e que, no fundo, todos nós procuramos.


O que vemos são trajetórias opostas e ao mesmo tempo bem parecidas. No final da década de 40, Julia Child (Meryl Streep) se muda para Paris com o marido diplomata, Karl (Stanley Tucci). Vai morar numa casa linda e clássica. Sobre a nova moradia, comenta empolgada: “É Versailles!” Em 2003, Julie Powell (Amy Adams) se muda para o Queens também com o marido (Chris Messina). Irão morar num apartamento de 85 metros quadrados em cima de uma pizzaria. A vida de Julia é sofisticada. A vida de Julie é classe média. Uma frequenta restaurantes franceses deliciosos, a outra cozinha em casa.

Ambas estão em busca de algo para preencher seu tempo, aliviar o tédio ou melhorar um dia exaustivo. E é em conversa com seus respectivos maridos que descobrem o que estão buscando. Karl, pergunta a Julia: “O que você mais gosta de fazer?” Ela responde: “Comer.” Ele sorri e comenta: “Isto você faz bem”. E ela acrescenta, divertida: “Cresço a olhos vistos!” . Enquanto isso, Julie, ao preparar uma torta cremosa de chocolate, comenta com o marido: “ Ao fim de um dia em que nada mais dá certo, é muito bom saber que a massa vai engrossar.” Cozinhar é um escape para Julie e uma arte a ser apreciada para Julia, mas, principalmente, algo que lhes traz conforto, aconchego. Ali, elas estão sempre à vontade.

Julia resolve, então, escrever um livro; Julie, um blog. A segunda fará em 365 dias todas as 524 receitas contidas no livro da primeira. Julia tornou-se a mulher que ensinou a américa a cozinhar e a comer. Julie a mulher que aprendeu. E, por fazerem algo que realmente lhes apraz, fazem bem. E insistem nas tarefas a que se propõem com determinação invejável. É muito bom saber que estas mulheres são reais. O que te motiva pode ser cozinhar, dançar, correr, ler, desenhar, pintar, escrever; para você, para seus amigos, para um grande público, mas deve trazer, principalmente, uma enorme satisfação pessoal. É com gosto que saímos do cinema. Gosto de viver, gosto de comer. E comer manteiga, ovos, doces! Ah! Pelo menos, de vez em quando. Bon Apetit!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Tinha que ser você

Tinha que ser você (2009)
Branca Machado – 26/08/2009

O título original de “Tinha que ser você” é “Last chance, Harvey”. Traduzido: “Última chance, Harvey”. O original é mais apropriado à história. Harvey já teve chances na vida. Muitas. E, por um motivo ou por outro, deixou-as escapar. Não estava escrito que ele ficaria com Kate desde sempre. Mas, amadurecido e ciente de que já havia perdido muitas oportunidades, ele viu em Kate a chance de fazer diferente e melhor o que havia feito antes. E isto é sempre admirável. Mudar é difícil e requer sabedoria e esforço.

O filme começa com Harvey (Dustin Hoffman) ao piano. Paralelamente, acompanhamos Kate (Emma Thompson) chegar à casa de sua mãe. Ele está em Nova York; ela, em Londres. Harvey viajará para Londres neste mesmo dia para o casamento de sua única filha. Kate lê no metrô. Harvey tenta contar uma piada no avião, mas é cortado. Finalmente, ele chega ao aeroporto de Londres,onde Kate também chega para trabalhar.Harvey desce a esteira com suas malas e Kate tenta fazer uma pesquisa com ele, mas ele não para porque está com pressa.

Harvey chega meio perdido ao jantar oferecido à véspera do casamento. Ele não está hospedado na casa onde sua filha, sua ex-mulher e amigos estão, mas sozinho em um hotel, o qual, Suzie, sua filha, reservou para ele. Jean, sua ex-mulher e o atual marido, ao contrário, estão bem à vontade. E quem faz o discurso no jantar é Brian, o padastro de Suzie.

Quando Harvey finalmente vai falar algo, o celular dele toca. A filha o coloca na ponta da mesa “para ficar mais fácil dele sair”. Deve ter sido assim por toda a vida: Harvey tinha que sair para atender um telefone, para trabalhar. Mais tarde, ele pergunta à ex-esposa no bar: “Receia que eu volte a envergonhar você?”. A história daquele casal não foi feliz.

No dia seguinte, no restaurante do aeroporto, Harvey está de costas para Kate, ele sentado no banco do scoth bar, ela, lendo numa mesa. Segue-se a cena mais interessante do filme.Ainda nesta posição, ele olha para o lado, a mesa de Kate está um pouco a frente dele e pergunta a ela: “Bom livro?” Ela responde: “Seria bom, se eu pudesse terminá-lo.” Ele, então, pede um Black Label ao garçom e ela comenta, irônica: “Vai ajudar”. E ele responde: “Vai ajudar tanto quanto este livro e essa taça de Chardonnay.” Na medida em que o diálogo evolui, Harvey resume: “Eu perdi meu voo, fui despedido e minha filha gosta mais do padastro que de mim”. Kate conclui: “Certo. Você ganhou. Seu dia foi pior.” A partir deste encontro, os dois que, até então, acompanhávamos separadamente, serão vistos juntos.

Tinha que ser você trata de chances. Devemos aproveitá-las quando aparecem. E elas aparecem. Nada está perdido. Redimir-se é bom. Falar o que se sente também. Harvey afirma para Kate, quando ela comenta que se sente mais confortável quando a desapontam que, no caso deles, vai dar tudo certo. Não há como saber se vai mesmo, mas temos a certeza que, desta vez, ele vai agarrar esta chance.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Valsa com Bashir

Valsa com Bashir (2009)


Branca Machado – 03/08/2009

O início de “Valsa com Bashir” mostra imagens de cachorros raivosos, cinzas, olhos e dentes iluminados, correndo e latindo em uma direção. Trata-se de um sonho. Um sonho que persegue um ex-soldado do exército de Israel que cumpriu missão na 1a Guerra do Líbano, no início dos anos 80.

Eram 26 cachorros. Exatamente o número de cachorros que o soldado se lembra de ter matado no Líbano. Os cachorros anunciavam a chegada do exército nas cidades. O colega contou seu sonho para o diretor Ari Folman que também serviu no Líbano à mesma época. A partir desta conversa, Folman percebe que praticamente não tem memória da guerra: “Não lembro nada da Guerra do Líbano. Só de uma imagem.” Assim, ele decide remexer no seu baú de lembranças.

Ari Folman construiu, então, um documentário em animação. Um desenho adulto, raro e o primeiro longa de animação a ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Bem dosado, em alguns momentos, chegamos a confundi-lo com uma película normal e, por outras vezes, as nuances, que a animação oferece, são a única técnica capaz de transmitir a dimensão simbólica que o diretor almeja.

O diretor entrevistou ex- companheiros e testemunhas do ataque de milicianos cristãos a palestinos em Sabra e Shatila, na periferia de Beirute. E, com este resgate histórico do massacre, não deixou de reconhecer a culpa de Israel no evento e, de certa forma, expiar seus “cachorros”. Como um dos seus amigos diz no filme: “Não vamos a lugares que não queremos ir. A memória nos leva a lugares que precisamos ir.”. Assistimos às lembranças de cada um. Foi assim que eles viram. É como se eles desenhassem com as palavras.

Ari Folman não se lembrava da guerra, mas tinha lembranças das licenças que tirou e, sobre elas, chega a comentar: “Quando voltei, a vida continuava normalmente na cidade. As pessoas iam à boate, dançavam”. A vida continuava, apesar do drama no Líbano. Disso, ele lembrava. Talvez, pelo choque da descoberta.

A milícia libanesa cristã-falangista, revoltada com a morte de seu líder Bashir Gemayel, executou centenas (ou milhares) de palestinos observados pelo exército de Israel. Que apenas olhou “Estavam levando civis em caminhões”. E os soldados israelenses chegaram a comentar: “Estão atirando em pessoas”. Mas acrescentaram: “Não percebemos que era um genocídio” . O filme demostra que, no fundo, as autoridades sabiam e que a alegação de que o exército de Israel não percebeu a ocorrência do massacre é uma falácia.

A guerra parece ainda mais profana em animação. Acompanhada de músicas clássicas, chega a machucar: Os desenhos, a música e o tema não combinam. E, justamente por isso, reforçam a mensagem. Ao final, ainda assistimos às imagens reais documentadas à época do massacre que, no contraste com o restante do filme, formam o desfecho perfeito. Aquilo não foi um pesadelo surreal. Aconteceu. É fato.É triste.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

De profundis

Bem, agora que tenho um blog, vou postar uns comentários de vez em quando... Fui assistir ao "De Profundis" no fim de semana, uma animação repleta de cenas para serem apreciadas. Imagens lindas.
Ficou a impressão de que aquelas cenas, talvez, ficassem melhor, se vistas estáticas, em um livro, ou, até mesmo, em telas. E a gente escolhia aquelas que queria olhar por mais tempo. Não sei se a imagem em movimento foi a mais adequada aos desenhos e à história...