segunda-feira, 2 de março de 2026

Uma Batalha após a Outra

 


Em sua primeira aparição no filme Uma Batalha após a Outra, assistimos ao revolucionário Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) correr e ele corre em direção à câmera, numa espécie de enfrentamento que combina com suas ações. Este dinamismo será a tônica narrativa do filme. De acordo com Guilherme Jacobs no site Omelete: “o filme transporta para a tela a energia nervosa com a qual vivemos diariamente; um mix de cansaço e ansiedade que surge de existir, exatamente como sugere o título, num estado constante de lutas.
No início, assistimos a um passado de militância e ações concretas de resistência de Bob na fronteira dos EUA com o México. Lá, descobrimos que ele namora Perfídia Bervely Hills (Teyana Taylor), ainda mais revolucionária que ele. E, lá também, tem origem a obsessão do Coronel Steven L Lockjaw (Sean Penn) justamente por Perfídia.
Após conhecermos este passado dos personagens, chegamos ao presente, 16 anos depois, em que Bob tornou-se um ex revolucionário, não à toa, paranoico que vive com sua filha Willa Ferguson (Chase Infiniti) em uma espécie de programa de proteção de testemunha. Ele tem nova identidade e não é protegido pelo governo, mas pelo seu grupo revolucionário. Quando colegas buscam Willa para uma festa, Bob avisa “O que fizerem com ela, viu fazer igual com a família de vocês”. Ela esclarece: “Ele é paranoico”. Nem assim, ele consegue impedir que a filha seja capturada.  
Bob não é um herói. Mas é um homem criado para resistir. E também para o enfrentamento. Fará uma busca incansável por Willa. Ela é a única coisa que ele tem a perder. Já para o Coronel Locjaw, justamente a existência dela pode fazê-lo perder muita coisa. São duas motivações contrárias de personagens extremos que compõem um thriller satírico, exagerado e reflexivo.
Dirigido por Paul Thomas Anderson, Uma Batalha após a Outra concorre a treze categorias no Oscar 2026, entre elas melhor filme, ator e diretor. Segundo Anderson, ele teve inspiração na relação com as próprias filhas: “Espero que o filme traga otimismo. O final passa o bastão para a próxima geração, e isso me deixa esperançoso.”. Quem sabe, na próxima batalha, os resultados sejam mais duradouros? Quem sabe um dia, nem seja preciso batalhar tanto? 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Agente Secreto


O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho se passa em Recife nos anos 70 e conta a história de Marcelo (Wagner Moura), que precisa sair do país, por estar sendo perseguido. O personagem está envolvido numa trama que nem entende direito. Não só ele, mas vários outros personagens que se hospedam no prédio cuidado por Dona Sebastiana (Tânia Maria). Todos ali têm uma segunda identidade, escondem-se de algo. Inclusive ela.

O filme é um thriller eficiente que nos mantém ligados à perseguição em que Marcelo está envolvido. Queremos que ele escape. Torcemos por ele. Ao mesmo tempo em que o acompanhamos, também vemos seus matadores serem contratados e planejarem sua captura. E esta construção narrativa é uma boa escolha para o andamento da história. Em meio a esta trama, foram incluídas lendas urbanas e manchetes reais de casos da cidade na época. Uma delas é sobre o Carnaval “91 mortos e contando”. Além de ser uma manchete sombria, ela nos remete à excelente cena inicial em que Marcelo para em um posto de gasolina e vê um corpo estirado no chão. O frentista explica “ninguém veio buscá-lo ainda porque é Carnaval”. A cena ainda mostra policiais que chegam ao posto mas, ao invés de recolherem o corpo, tentam tirar alguma vantagem de Marcelo ou de qualquer outro cliente que estivesse ali. Em uma cena, o diretor resume a dinâmica do país que é mostrado no filme. Um país cheio de pirraças. Se há um agente secreto, ele pode ser qualquer um daqueles personagens que se escondem na casa da Dona Sebastiana. Ou pode ser simplesmente a ditadura que colocou todos eles naquela situação: escondidos, temerosos, com identidades diferentes. Identidade esta que é preciso resgatar por meio de filmes, memória e fatos.


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A Baleia

"A Baleia” conta a história de um professor de redação recluso e com obesidade severa que tenta se reconectar com sua filha adolescente e se entender com o passado. O filme ganhou o Oscar de Melhor Ator para Brendan Fraser e o de Melhor Cabelo e Maquiagem em 2023. 

A única cena externa em plano aberto do longa é a primeira, que mostra um ônibus parado em uma estrada vazia e um céu bem carregado, mas com um brilho de sol. Depois disso, seremos levados para o ambiente soturno do apartamento do professor Charlie (Brendan Fraser) e só veremos o céu, quando a porta do apartamento se abre e ele aparece como um vislumbre, sempre longe, quase inalcançável. Para Charlie, parece ser...

O professor dá aulas de redação a distância para universitários e nunca abre a câmera. Sempre diz que está quebrada. É emblemática a cena em que vemos na tela de um notebook vários alunos com a câmera aberta, mas, no centro, onde devia estar o rosto do professor, só vemos um quadrado preto. A câmera se aproxima até enquadrar apenas ele e, então, surge o letreiro: A Baleia.

O nome se remete à condição física de Charlie, que pesa mais de 250 kg, mas também a sua obsessão por um ensaio sobre o livro Moby Dick. Ele lê esta redação várias vezes durante o filme e, ao final, descobrimos o motivo.

A Baleia é dirigido por Darren Aronofsky, conhecido por filmes como Cisne Negro e Mãe!, que trabalham temas como obsessão com consequente entrega física e mental. Sobre o diretor, a crítica Isabela Boscov comentou: "Ele faz filmes que dividem opiniões e que convidam para reflexão". Não é diferente com este.

Assistimos a 5 dias na rotina de Charlie, que não consegue sequer pegar uma chave no chão sem ajuda. Sua vida se restringe aquele apartamento. E nós estamos ali com ele. Baseado numa peça teatral, a história tem poucos personagens. Thomas (Ty Simpkins), um missionário que aparece na casa de Charlie naquela semana; a enfermeira Liz (Hong Chau), que está sempre por lá; a filha Ellie (Sadie Sink) que é convidada por ele. E a ex-esposa Mary (Samantha Morton), que aparece em busca da filha. Eles surgem nesta ordem na medida em que os dias passam. Charlie busca um perdão pelas escolhas que fez. No entanto, parece buscar, principalmente, compreensão; até por não lutar pela vida.

Ao longo do filme, lembrei-me de O Vendedor de Passados, no qual há um personagem que foi obeso e compra um passado para poder viver um futuro. Ernane (Anderson Müller), quando tinha 08 anos, pesava 60 kg; quando tinha 14, pesava 80 kg; quando tinha 16, pesava 130 e não saía mais de casa. Com 34 anos, fez cirurgia bariátrica. E, então, quis forjar a vida que não teve. Em A Baleia, vemos Charlie, que teve um passado, sempre confrontado e relembrado durante a história, mas não quer um futuro. Almeja apenas um acerto de contas. Uma espécie de perdão. E, a julgar pela cena final, parece que conseguiu.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

O Último Azul

 


“O Último Azul” se passa em um Brasil distópico no qual pessoas com mais de 75anos devem ser retiradas da sociedade e recolhidas a uma colônia de idosos. A história lembra obras como 1984 de George Orwell, incluindo aspectos como a vigilância constante, a supressão da liberdade individual e do pensamento crítico. 

Trata-se de uma atmosfera opressiva e imaginária, mas que, em alguns momentos, não nos parece tão improvável quanto deveria. No filme, acompanhamos Tereza (Denise Weinberg), uma mulher de 77 anos, que descobre que não pode mais se deslocar sem a autorização da filha e que tem poucos dias para se mudar para a colônia. 

Tereza é resistência. Ela não quer ir. Não vê motivo. Não queria também parar de trabalhar, mas teve... Em sua saga marginal para escapar desta sina legal, ela cruza com diversos personagens como o barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro) ou Roberta (Miriam Socarrás), como a navegante que comprou sua liberdade. Cada personagem é uma possibilidade. Toda a travessia acontece pelos rios amazônicos, um cenário que é também personagem. 

Dirigido por Gabriel Mascaro, o filme conquistou destaque internacional: foi premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim e teve o reconhecimento do público com o Prêmio do Júri de Leitores do jornal Berliner Morgenpost. Segundo o diretor, “o filme é um manifesto poético sobre o direito de sonhar — independentemente da idade — e sobre a possibilidade de ressignificar a vida a qualquer momento”. 

O personagem castrador, além do estado, é a filha que a todo momento impede a mãe de seguir com o que quer. Ela, por lei, é quem toma as decisões desde que Tereza completou 75 anos e até recebe uma compensação financeira por isto. Esta inversão é cada vez mais pertinente. O outsider é o idoso; o repressor, o filho. Segundo Angelo Cordeiro da revista Rolling Stone, “O Último Azul é coming of age da terceira idade em uma Amazônia distópica e fabular: Em vez da adolescência, é a velhice que ganha contornos de aprendizado, desejo e transformação. Tereza, com sua força silenciosa, enfrenta desafios que a obrigam a rever sua relação com o mundo e com o próprio corpo”.

Hoje, com assuntos como o etarismo e o aumento da longevidade em alta, o filme traz uma reflexão válida e atual. E a lição que nos deixa é que idade não é sentença. A vida sempre terá possibilidades para quem tem disposição e sonhos a realizar. 



sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A mulher da casa abandonada

O documentário “A mulher da casa abandonada” é uma adaptação do podcast de mesmo nome, produzido pelo jornalista Chico Felitti, em 2022.

Felitti conta que, durante a pandemia, começou a caminhar pelo bairro Higienópolis em São Paulo e a reparar numa outrora mansão, mas, agora, abandonada. Nela, de vez em quando, ele via uma mulher estranha, malvestida, com o rosto muito branco no lado externo da casa.

Resolveu investigar, a princípio, por desconfiar de maus tratos a idosos. Mas, depois, descobriu que havia algo bem pior. O podcast viralizou pelo mistério em torno desta mulher; que, ao longo de suas investigações, Felitti descobriu se tratar de Margarida Bonetti, descendente de uma família da aristocracia paulista.

Não só isto, mas que ela e seu ex-marido, Renê Bonetti, foram acusados de manter uma empregada ilegalmente nos EUA em situações análogas à escravidão. Eles foram julgados naquele país e condenados. Margarida retornou ao Brasil antes do julgamento e ficou foragida, desde então. Mesmo assim, o caso teve um impacto nos EUA, resultando na criação de uma lei que protege vítimas de trabalho forçado.

Lançado pela Amazon Prime, o documentário traz depoimentos inéditos da vítima, Hilda Rosa dos Santos, de 85 anos. Em certo momento, ela se questiona: “Por que me fazer sofrer tanto assim?”.

Novamente, assistimos à monstruosidade de pessoas reais. Como eu escrevi na coluna de julho, elas não são incomuns. Mas são sempre chocantes. E o discurso banal para justificar o sórdido está também presente.  Ouvimos coisas como “Foi um choque cultural. No Brasil, isto não teria nada demais”.

Em nenhum momento, Margarida ou René reconhecem ter feito algo errado com Hilda. Em todas as suas falas, relativizam a crueldade que fizeram e quase a tornam trivial. Quase. Porque produções como este documentário e pessoas como os vizinhos americanos que resgataram Hilda estão aí para nos mostrar que, de banal, este caso tem nada. E, ao colocar os depoimentos dos patrões em contraponto aos da empregada, o filme acerta por nos chocar ainda mais.

O que atrai nesta história como drama narrativo, além do mistério, é a virada. Quem começa como provável vítima torna-se algoz. E a trama termina com a irônica sensação de que a casa abandonada virou um lugar bom demais para aquela mulher. 


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

A Garota da Agulha

 



A Garota da Agulha é daqueles filmes cujo protagonista começa em uma situação ruim e, por estar nela, realiza escolhas e decisões desesperadas que só pioram sua situação. No caso de Karoline (Victoria Carmen Sonne), a personagem principal, sua trajetória é de degradação.

O filme começa com a jovem grávida, abandonada pelo pai da criança, que também era seu chefe. Por isto, fica também desempregada. Uma história não tão incomum na vida das mulheres até hoje. Mas ela luta para sobreviver em Copenhague após a Primeira Guerra Mundial. O ambiente é de miséria, fome, indiferença e falta de perspectiva. Assim, qualquer acolhimento é melhor que nenhum. E ela é acolhida por Dagmar (Trine Dyrholm), uma mulher carismática e misteriosa, que comanda uma agência de adoção clandestina a quem Karoline passou seu bebê.

Representante da Dinamarca na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2024, o filme tem uma fotografia em preto e branco extremamente simbólica e expressiva. O céu estrelado abafado por chaminés, fumaça e telhas escuras representa perfeitamente o clima da narrativa e do pós-guerra.

Não por acaso, ele é inspirado no expressionismo alemão, que surgiu em meados de 1920, época na qual a história se passa. O movimento se caracterizou pela representação subjetiva do mundo, expressando emoções internas e angústias por meio de distorções visuais e performances exageradas; todos, elementos contidos no filme.

É chocante saber que a história, inimaginável em certos aspectos, é inspirada em acontecimentos reais. Dagmar Johanne Amalie Overby realmente existiu... A Garota da Agulha não é um filme de terror. Antes fosse.

Por não ser, é muito mais aterrorizante que qualquer filme do gênero. Ele nos amedronta pela monstruosidade de uma pessoa real. Daquelas que criam um discurso de justiça para fazer o sórdido. Elas não são incomuns. Dagmar representa o extremo delas. Em seu julgamento, insiste em dizer que deveriam agradecê-la: “Fiz o que era preciso. Deviam me dar uma medalha.” Depois de tudo que acompanhamos ao longo da história, o impacto desta fala da personagem, olhando diretamente para as pessoas ali presentes (que é também onde está o nosso olhar), ecoa em nossa mente para muito depois do filme.