No dia em que ia escrever este comentário, coincidentemente, uma amiga me mandou o link de uma colunista da Folha de São Paulo com o título “O que tem para jantar? e a sobrecarga mental”. Em seu texto, Giovana Madalosso reflete sobre as tarefas mentais não computadas na rotina doméstica: “Quem costuma comprar o presente do amiguinho de escola? Quem vai atrás de novas calças de uniforme, já que as velhas estão raladas no joelho? Quem costuma participar do infernizante grupo de whatsapp da escola? “E, por aí, vai...
O filme “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” leva esta reflexão ao extremo. Isto porque, quando conhecemos Linda (Rose Byrne), ela já está em um elevado nível de esgotamento. Além da lista já grande de tarefas mentais, ela lida com uma doença grave da filha e com uma casa cujo teto literalmente desmorona. Linda está em um automático de stress que vai piorar. E não tem mais a capacidade de enxergar além daquele dia a dia caótico. Não é mais resiliente. É apenas reativa. E resistente. Mas não de um jeito bom. Talvez como um roedor, como comenta seu terapeuta (Conan O´Brien) em uma de suas conversas com Linda.
Neste ambiente, quem assiste e, principalmente aqueles que sentem identificação, tendem a se sentir sufocados. Não à toa os ângulos adotados pela diretora Mary Bronstein contribuem para que a gente se sinta assim. São fechados. Quase sempre em close. Principalmente, de Linda. Quando ela está com mais alguém em cena, muitas vezes, a câmera fica nela, em suas reações.
A filha não é enquadrada. Só ouvimos sua voz, interagindo com a mãe. Ela tem uma doença grave. Pesa para Linda. Pesa para ela. O marido, Charles (Christian Slater), nunca está na cidade. Está apenas do outro lado do telefone. Questionando algo. Exigindo outro. Muitas vezes, Linda termina a ligação, sem que ele queira. O que ela sabe é que está ali sozinha, tentando administrar um caos e uma revolta que, se algum dia tentou disfarçar, nem tenta mais. Ela também é um caos. Seu jeito, suas atitudes, sua aparência; tudo indica uma sobrecarga que ela não mais administra. Linda sobrevive. Não tem mais a capacidade de chutar porque nem sente mais suas pernas... Sente uma incapacidade extenuante.
Em sua coluna, Giovana Madalosso escreve “Como não é física, a sobrecarga mental não costuma ser considerada, mas isso não quer dizer que não exista e não pese- pesa mais do que lavar pratos porque, muitas vezes, envolve tomadas de decisões, a ansiedade e a responsabilidade que vem junto”. Este filme consegue representar esta carga invisível de forma bastante concreta. A tendência é achar que se, aos poucos, Linda conseguir uma certa perspectiva, as coisas comecem a se resolver. Esperamos que sim. O final nos dá esta esperança. Que bom! Tanto para Linda. Quanto para nós.




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