Assista-me
Este é um blog sobre cinema. Mais especificamente sobre filmes de que eu gosto aos quais assisti no cinema. Por isso, seu nome é Assista-me! Escrevo tais artigos desde agosto de 2006 e pretendo continuar escrevendo pelo menos 01 vez por mês. Espero, com o blog, indicar tais filmes e também motivar uma reflexão sobre eles.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Natal Amargo
quarta-feira, 3 de junho de 2026
O Drama
Imagina você descobrir a pior coisa que o seu parceiro já fez (ou quase) na vida? E que esta descoberta te choque de forma bastante forte, como se você não conhecesse mais aquela pessoa e tudo que pensava sobre ela mudasse de perspectiva?
Esta é a premissa de O Drama estrelado por Robert Pattinson (Charlie) e Zendaya (Emma). O filme se inicia com Charlie relembrando o momento em que conheceu Emma. Ele está escrevendo o voto do casamento deles que acontecerá em uma semana. Pela cena, percebemos que se trata de um casal apaixonado e, principalmente, conectado.
Eles são exigentes eticamente. Ela, ainda mais. Não perdoa o deslize de uma DJ contratada para tocar na festa, que, em nada, é relacionado com o trabalho que será realizado pela profissional na recepção. Passou a vê-la diferente quando a viu consumindo drogas e não vai mais contratá-la. A atitude da DJ em sua vida particular mudou o olhar e conceito que se tinha sobre ela.
Ironicamente, esta situação é a mesma pela qual Emma passará com Charlie, mas em uma dimensão muito maior. Afinal, são o noivo, a madrinha do casamento entre outros que passarão a enxergá-la diferente, como se não a reconhecessem. Em uma brincadeira com os padrinhos, enquanto tomavam vinho, eles resolvem contar o que de pior já fizeram na vida. E o que Emma conta muda toda a dinâmica do ambiente. E do filme.
O diretor Kristoffer Borgli passa a mostrar cenas do imaginário de Charlie após saber o que de pior a noiva já fez. Emma percebe pela expressão do noivo no que ele está pensando. Este tipo de situação no filme é eficientemente construído. E a evolução desta dinâmica leva O Drama para situações cada vez mais surpreendentes.
Em certo momento, assistimos à Charlie tentando refazer seu voto de casamento. Entre suas tentativas, pensa em escrever “Conheço pessoas piores que você”. A verdade é que não conhecemos ninguém totalmente. E, a todo momento, podemos nos surpreender com opiniões ou atitudes que, até então, considerávamos impensáveis ou inaceitáveis. O filme desconstrói aquela história do “sei tudo sobre ele”. Não sabemos e será que deveríamos saber mesmo?
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Zona de Interesse
Zona de interesse, entre outras premiações, foi
vencedor do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio da Crítica do Festival de Cannes
de 2023, além de ser o vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2024.
O filme merece todos eles. É impactante e dói na gente sem mostrar nada ruim de
fato. Talvez, por isto, doa até mais.
Inspirado no livro homônimo de Martin Amis, o filme tem como
ponto de partida a casa em que moravam Rudolf Höss (Christian Friedel),
comandante do campo de concentração Auschwitz, sua esposa Hedwig (Sandra Hüller)
e seus filhos.
Acompanhamos a rotina idílica desta família cujo lar é
vizinho de um local de extermínio. Höss, para trabalhar, segue uma trilha em
frente ao jardim e atravessa uma pequena porteira em uma cerca. Por vezes, sua
esposa o segue com a bebê no colo e diz: “Tchau, paizinho”. A presença
do campo de concentração é dilacerante para nós espectadores e completamente
banal para os membros da família e seus visitantes. Em certo momento, um deles
agradece à casa Höss: “Nós agradecemos a hospitalidade nacional-socialista”.
O filme trabalha com esta antítese no nosso imaginário por
todo o tempo. A casa familiar/ o campo de concentração. A limpeza/ a fumaça cinza
do campo. O banal/o grotesco. A família numerosa e feliz/ a dizimação dos
judeus. O humano/ O desumano. Este paralelismo acaba se encontrando no som,
cuja montagem é brilhante. Afinal, a casa Höss, por mais feliz que seja, não
pode se furtar dos sons que vêm do outro lado do muro.
Auschwitz nunca é filmado diretamente. Sempre insinuado,
visto pela casa. E, principalmente, ouvido. Ao final, entramos no Campo, que,
hoje, funciona como um documento do que aconteceu lá. Ele é cuidado e limpo
como a casa ao lado um dia foi. Mas, neste caso, como algo que tem de ser
preservado para que a gente nunca se esqueça. É preciso ser confrontado com a
montanha de sapatos e utensílios, com o corredor de fotos dos milhares que ali
morreram. É preciso enxergar de frente o que aquela família não via.
terça-feira, 31 de março de 2026
Se eu tivesse pernas, eu te chutaria
No dia em que ia escrever este comentário, coincidentemente, uma amiga me mandou o link de uma colunista da Folha de São Paulo com o título “O que tem para jantar? e a sobrecarga mental”. Em seu texto, Giovana Madalosso reflete sobre as tarefas mentais não computadas na rotina doméstica: “Quem costuma comprar o presente do amiguinho de escola? Quem vai atrás de novas calças de uniforme, já que as velhas estão raladas no joelho? Quem costuma participar do infernizante grupo de whatsapp da escola? “E, por aí, vai...
O filme “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” leva esta reflexão ao extremo. Isto porque, quando conhecemos Linda (Rose Byrne), ela já está em um elevado nível de esgotamento. Além da lista já grande de tarefas mentais, ela lida com uma doença grave da filha e com uma casa cujo teto literalmente desmorona. Linda está em um automático de stress que vai piorar. E não tem mais a capacidade de enxergar além daquele dia a dia caótico. Não é mais resiliente. É apenas reativa. E resistente. Mas não de um jeito bom. Talvez como um roedor, como comenta seu terapeuta (Conan O´Brien) em uma de suas conversas com Linda.
Neste ambiente, quem assiste e, principalmente aqueles que sentem identificação, tendem a se sentir sufocados. Não à toa os ângulos adotados pela diretora Mary Bronstein contribuem para que a gente se sinta assim. São fechados. Quase sempre em close. Principalmente, de Linda. Quando ela está com mais alguém em cena, muitas vezes, a câmera fica nela, em suas reações.
A filha não é enquadrada. Só ouvimos sua voz, interagindo com a mãe. Ela tem uma doença grave. Pesa para Linda. Pesa para ela. O marido, Charles (Christian Slater), nunca está na cidade. Está apenas do outro lado do telefone. Questionando algo. Exigindo outro. Muitas vezes, Linda termina a ligação, sem que ele queira. O que ela sabe é que está ali sozinha, tentando administrar um caos e uma revolta que, se algum dia tentou disfarçar, nem tenta mais. Ela também é um caos. Seu jeito, suas atitudes, sua aparência; tudo indica uma sobrecarga que ela não mais administra. Linda sobrevive. Não tem mais a capacidade de chutar porque nem sente mais suas pernas... Sente uma incapacidade extenuante.
Em sua coluna, Giovana Madalosso escreve “Como não é física, a sobrecarga mental não costuma ser considerada, mas isso não quer dizer que não exista e não pese- pesa mais do que lavar pratos porque, muitas vezes, envolve tomadas de decisões, a ansiedade e a responsabilidade que vem junto”. Este filme consegue representar esta carga invisível de forma bastante concreta. A tendência é achar que se, aos poucos, Linda conseguir uma certa perspectiva, as coisas comecem a se resolver. Esperamos que sim. O final nos dá esta esperança. Que bom! Tanto para Linda. Quanto para nós.
segunda-feira, 2 de março de 2026
Uma Batalha após a Outra
No início, assistimos a um passado de militância e ações concretas de resistência de Bob na fronteira dos EUA com o México. Lá, descobrimos que ele namora Perfídia Bervely Hills (Teyana Taylor), ainda mais revolucionária que ele. E, lá também, tem origem a obsessão do Coronel Steven L Lockjaw (Sean Penn) justamente por Perfídia.
Após conhecermos este passado dos personagens, chegamos ao presente, 16 anos depois, em que Bob tornou-se um ex revolucionário, não à toa, paranoico que vive com sua filha Willa Ferguson (Chase Infiniti) em uma espécie de programa de proteção de testemunha. Ele tem nova identidade e não é protegido pelo governo, mas pelo seu grupo revolucionário. Quando colegas buscam Willa para uma festa, Bob avisa “O que fizerem com ela, viu fazer igual com a família de vocês”. Ela esclarece: “Ele é paranoico”. Nem assim, ele consegue impedir que a filha seja capturada.
Bob não é um herói. Mas é um homem criado para resistir. E também para o enfrentamento. Fará uma busca incansável por Willa. Ela é a única coisa que ele tem a perder. Já para o Coronel Locjaw, justamente a existência dela pode fazê-lo perder muita coisa. São duas motivações contrárias de personagens extremos que compõem um thriller satírico, exagerado e reflexivo.
Dirigido por Paul Thomas Anderson, Uma Batalha após a Outra concorre a treze categorias no Oscar 2026, entre elas melhor filme, ator e diretor. Segundo Anderson, ele teve inspiração na relação com as próprias filhas: “Espero que o filme traga otimismo. O final passa o bastão para a próxima geração, e isso me deixa esperançoso.”. Quem sabe, na próxima batalha, os resultados sejam mais duradouros? Quem sabe um dia, nem seja preciso batalhar tanto?
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
O Agente Secreto
O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho se passa em Recife nos anos 70 e conta a história de Marcelo (Wagner Moura), que precisa sair do país, por estar sendo perseguido. O personagem está envolvido numa trama que nem entende direito. Não só ele, mas vários outros personagens que se hospedam no prédio cuidado por Dona Sebastiana (Tânia Maria). Todos ali têm uma segunda identidade, escondem-se de algo. Inclusive ela.
O filme é um thriller eficiente que nos mantém ligados à perseguição em que Marcelo está envolvido. Queremos que ele escape. Torcemos por ele. Ao mesmo tempo em que o acompanhamos, também vemos seus matadores serem contratados e planejarem sua captura. E esta construção narrativa é uma boa escolha para o andamento da história. Em meio a esta trama, foram incluídas lendas urbanas e manchetes reais de casos da cidade na época. Uma delas é sobre o Carnaval “91 mortos e contando”. Além de ser uma manchete sombria, ela nos remete à excelente cena inicial em que Marcelo para em um posto de gasolina e vê um corpo estirado no chão. O frentista explica “ninguém veio buscá-lo ainda porque é Carnaval”. A cena ainda mostra policiais que chegam ao posto mas, ao invés de recolherem o corpo, tentam tirar alguma vantagem de Marcelo ou de qualquer outro cliente que estivesse ali. Em uma cena, o diretor resume a dinâmica do país que é mostrado no filme. Um país cheio de pirraças. Se há um agente secreto, ele pode ser qualquer um daqueles personagens que se escondem na casa da Dona Sebastiana. Ou pode ser simplesmente a ditadura que colocou todos eles naquela situação: escondidos, temerosos, com identidades diferentes. Identidade esta que é preciso resgatar por meio de filmes, memória e fatos.






