quinta-feira, 30 de abril de 2026

Zona de Interesse

 

Zona de interesse, entre outras premiações, foi vencedor do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio da Crítica do Festival de Cannes de 2023, além de ser o vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2024. O filme merece todos eles. É impactante e dói na gente sem mostrar nada ruim de fato. Talvez, por isto, doa até mais.

Inspirado no livro homônimo de Martin Amis, o filme tem como ponto de partida a casa em que moravam Rudolf Höss (Christian Friedel), comandante do campo de concentração Auschwitz, sua esposa Hedwig (Sandra Hüller) e seus filhos.

Acompanhamos a rotina idílica desta família cujo lar é vizinho de um local de extermínio. Höss, para trabalhar, segue uma trilha em frente ao jardim e atravessa uma pequena porteira em uma cerca. Por vezes, sua esposa o segue com a bebê no colo e diz: “Tchau, paizinho”. A presença do campo de concentração é dilacerante para nós espectadores e completamente banal para os membros da família e seus visitantes. Em certo momento, um deles agradece à casa Höss: “Nós agradecemos a hospitalidade nacional-socialista”.

O filme trabalha com esta antítese no nosso imaginário por todo o tempo. A casa familiar/ o campo de concentração. A limpeza/ a fumaça cinza do campo. O banal/o grotesco. A família numerosa e feliz/ a dizimação dos judeus. O humano/ O desumano. Este paralelismo acaba se encontrando no som, cuja montagem é brilhante. Afinal, a casa Höss, por mais feliz que seja, não pode se furtar dos sons que vêm do outro lado do muro.

Auschwitz nunca é filmado diretamente. Sempre insinuado, visto pela casa. E, principalmente, ouvido. Ao final, entramos no Campo, que, hoje, funciona como um documento do que aconteceu lá. Ele é cuidado e limpo como a casa ao lado um dia foi. Mas, neste caso, como algo que tem de ser preservado para que a gente nunca se esqueça. É preciso ser confrontado com a montanha de sapatos e utensílios, com o corredor de fotos dos milhares que ali morreram. É preciso enxergar de frente o que aquela família não via.


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