Zona de interesse, entre outras premiações, foi
vencedor do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio da Crítica do Festival de Cannes
de 2023, além de ser o vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2024.
O filme merece todos eles. É impactante e dói na gente sem mostrar nada ruim de
fato. Talvez, por isto, doa até mais.
Inspirado no livro homônimo de Martin Amis, o filme tem como
ponto de partida a casa em que moravam Rudolf Höss (Christian Friedel),
comandante do campo de concentração Auschwitz, sua esposa Hedwig (Sandra Hüller)
e seus filhos.
Acompanhamos a rotina idílica desta família cujo lar é
vizinho de um local de extermínio. Höss, para trabalhar, segue uma trilha em
frente ao jardim e atravessa uma pequena porteira em uma cerca. Por vezes, sua
esposa o segue com a bebê no colo e diz: “Tchau, paizinho”. A presença
do campo de concentração é dilacerante para nós espectadores e completamente
banal para os membros da família e seus visitantes. Em certo momento, um deles
agradece à casa Höss: “Nós agradecemos a hospitalidade nacional-socialista”.
O filme trabalha com esta antítese no nosso imaginário por
todo o tempo. A casa familiar/ o campo de concentração. A limpeza/ a fumaça cinza
do campo. O banal/o grotesco. A família numerosa e feliz/ a dizimação dos
judeus. O humano/ O desumano. Este paralelismo acaba se encontrando no som,
cuja montagem é brilhante. Afinal, a casa Höss, por mais feliz que seja, não
pode se furtar dos sons que vêm do outro lado do muro.
Auschwitz nunca é filmado diretamente. Sempre insinuado,
visto pela casa. E, principalmente, ouvido. Ao final, entramos no Campo, que,
hoje, funciona como um documento do que aconteceu lá. Ele é cuidado e limpo
como a casa ao lado um dia foi. Mas, neste caso, como algo que tem de ser
preservado para que a gente nunca se esqueça. É preciso ser confrontado com a
montanha de sapatos e utensílios, com o corredor de fotos dos milhares que ali
morreram. É preciso enxergar de frente o que aquela família não via.

Nenhum comentário:
Postar um comentário