sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Convite


O Convite, a princípio, nos parece despretensioso, mas surpreende com sua combinação de profundidade e leveza. Nos vemos diante de diálogos inteligentes, de risadas inesperadas e, principalmente, de um olhar sensível para a dinâmica de um casal que, juntos há mais de 20 anos, já não se enxergam, apenas convivem.  

Sobre o filme, a diretora Olivia Wilde, que é também uma das personagens, declarou em entrevista à Elle Brasil: “As pessoas se esquecem de que merecem mais. E acho que agora, aos 42 anos, isso é algo que realmente me importo, especialmente as mulheres.”

A trama possui 4 personagens, Angela (Olivia Wilde), casada com Joe (Seth Rogen); e Pina (Penélope Cruz), que namora Hawk (Edward Norton) há cerca de um ano. Angela e Joe convidam Pina e Hawk para jantar e a história se passa durante este encontro. 

Logo que chega, Hawk elogia a decoração, os detalhes do apartamento e Ângela se emociona com os comentários. Finalmente, alguém que percebe seu esforço e gosto, que demonstra uma afinidade que, com Joe, ela já não tem. Que percebe o que seu parceiro não vê. Ela está à beira de um ataque de nervos. Ele usa a ironia como autoengano. Já Pina e Hawk estão apaixonados, trazem equilíbrio e modernidade ao encontro. Ambos vêm de outros relacionamentos. E esta experiência faz com que tenham um olhar de compreensão à dinâmica entre o casal de anfitriões. É um olhar de cima. Como quem pensa “já estive ali”.

As pessoas costumam chamar de zona de conforto a um estado psicológico no qual mantemos rotinas previsíveis e comportamentos familiares, no qual deixamos de querer evoluir ou experimentar. Interpreto mais como zona de comodismo. Porque nem confortável ela é. Que bom que certos encontros podem nos tirar dali. Sermos confrontados com uma verdade que não queremos enfrentar, às vezes, é tudo de que precisamos. O final em aberto nos deixa apenas com a certeza de que nada será como antes. Ainda bem. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Natal Amargo



    Os filmes do Almodóvar têm uma assinatura. Um estilo próprio. A cenografia, direção de arte, diálogos, trilha sonora, figurino são uma atração para além da trama em si. Para quem é fã, já vamos assistir por isto, mas sempre há algo em cada filme dele que os torna especiais. 
    Em Natal Amargo, Almodóvar escreve sobre Raúl (Leonardo Sbaraglia), um diretor e roteirista que escreve sobre Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora e roteirista em crise. Ou seja, no filme, Raúl seria o próprio Almodóvar e a Elsa, o personagem de Raúl para o Almodóvar. Neste exercício, há muito de autobiográfico. E, claro, de metalinguagem.
    Natal Amargo é bom de assistir e ouvir. Os diálogos são sempre interessantes. Os personagens têm camadas, as quais vamos descobrindo aos poucos. O filme se inicia com Elsa em meio a uma crise de pânico com uma dor de cabeça que não passa. Ela acaba tendo que ir ao hospital. Descobrimos que a diretora está assim há um ano. No Natal anterior, começou a ter aquelas crises. Elsa melhora ao longo da trama na medida em que coloca o próprio sentimento em perspectiva. E ela o coloca em perspectiva por meio de seu processo de criação. E é, por meio de Elsa, que Raúl retoma o seu processo de criação e percebemos que ele coloca muito de si nela. Como, provavelmente, Almodóvar colocou muito de si em Raúl.
    O inevitável uso de conflitos reais sendo tratados pelo diretor na trama é um dos temas abordados pelo filme, que, aliás, é um assunto recorrente nos filmes do cineasta. Ele já até comentou em entrevista que a mãe dele dizia que as amigas dela reclamavam de ele colocar histórias semelhantes às delas nos filmes. Sobre isto, Almodóvar comentou: “Uma mãe é uma fonte inesgotável de histórias e ficção”.
    Na trama, acompanhamos situações mal resolvidas e pessoas que estancaram por algum motivo. Os conflitos não se concluem de forma mágica. E isto é amargo. Ao longo do filme, vemos este amargo começar a se dissipar de forma lenta, profunda, reflexiva, mas evolutiva. Disso se trata a vida. De andar para a frente, insistir, mesmo que com grande esforço.