Zuzu Angel (2006)
Branca Moura Machado
“Se meu filho é inocente ou culpado, que ele seja julgado! O que eu não aceito é que vocês finjam que ele não existe!” Esta afirmação de Zuzu Angel (Patrícia Pillar) resume sua trajetória nesse filme: uma mulher que passou a viver na busca de provar o que tinha acontecido a seu filho.
Em uma época na qual mulher desquitada era considerada vagabunda e foi decretado o fim do Habeas Corpus para presos políticos, Zuzu teve seu filho Stuart Angel (Daniel de Oliveira) assassinado pelo governo, sem que nunca se admitisse isso.
É interessante observar, durante o filme, o embate entre Stuart e sua mãe a respeito do envolvimento dele com a luta armada: ela questionando, ele defendendo. Em um certo momento, ela afirma que suas costureiras estão lutando para sobreviver e não têm tempo para revolução, enquanto Stuart acredita em sua missão libertadora. Em outra cena, Sônia (Leandra Leal), esposa de Stuart, está fugindo para o Paraguai e Zuzu reflete: “Vocês são muito racionais... Será que, pelo menos, sentirão saudade um do outro?”.
O figurino e as estampas das roupas que Zuzu veste e cria variam de acordo com o amadurecimento político da estilista. Do tributo ao Brasil à decepção com o país e seu regime político; tudo se reflete em suas criações.
O diretor Sergio Rezende, algumas vezes, carrega na dramaticidade. A cena em que Zuzu lê a carta que relata a morte de seu filho perde veracidade por ser exagerada. Os movimentos são grandes, a água na banheira transborda; talvez, com movimentos e expressões mais discretos, fosse possível transmitir muito mais emoção. Também desnecessária a cena em que Zuzu procura o pai de Carlos Lamarca e, enquanto ela fala, ele, que é sapateiro, morde o prego que segura na boca e o sangue começa a jorrar.
Em compensação, há cenas que utilizam com eficiência as ferramentas da linguagem cinematográfica. No restaurante, a conversa entre Zuzu e o representante da Anistia Internacional, na qual se foca e se desfoca ao fundo a imagem de um espião, transmite seu significado sem utilizar o costumeiro close.
Ao final, é emocionante constatar como cada pessoa tem uma lembrança diferente de um mesmo momento compartilhado. Enquanto Zuzu relembra um dia na praia em que se apavorou por pensar que o filho, ainda criança, havia sumido; ele se lembra apenas do abraço do encontro e de como se sentiu protegido naquele momento. E Zuzu não deixou de protegê-lo, mesmo quando ele já havia ido...
Este é um blog sobre cinema. Mais especificamente sobre filmes de que eu gosto aos quais assisti no cinema. Por isso, seu nome é Assista-me! Escrevo tais artigos desde agosto de 2006 e pretendo continuar escrevendo pelo menos 01 vez por mês. Espero, com o blog, indicar tais filmes e também motivar uma reflexão sobre eles.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Ponto Final
Ponto Final (2005)
Branca Moura Machado
Branca Moura Machado
Quem vai assistir a um filme do Woody Allen já tem uma ideia preconcebida do que vai ver. Na maioria das vezes, o filme terá muitos diálogos, humor inteligente, tiradas interessantes e um personagem que, se não for interpretado pelo próprio diretor, será muito parecido com ele: falante, neurótico, cheio de manias. Ponto Final não lembra os filmes usuais do diretor, a não ser por seu brilhantismo.
Dirigido e roteirizado por Woody Allen, seu tema é a sorte e de como ela é fundamental em certos momentos de nossas vidas. No filme, ela é definidora e essencial. Mas, a meu ver, ele é também sobre o castigo. Não é à toa que Chris, personagem de Jonathan Rhys-Meyers, aparece lendo “Crime e Castigo” de Dostoievski. O castigo virá com o crime, independente de ele ser descoberto ou não.
A cena inicial mostra uma bola de tênis sendo rebatida de um lado para o outro da quadra até que finalmente ela atinge a rede e pode ou não passar para o outro lado. Tal cena é acompanhada por uma reflexão de Chris sobre a sorte e de como ela é essencial em um jogo e, claro, na vida. A partir daí, conhecemos a história de Chris, um ex-jogador de tênis que se muda para Londres para ser professor do jogo e acaba conhecendo Tom (Matthew Goode) e sua irmã Chloe (Emily Mortimer). Tom e Chloe são riquíssimos e possuem o estilo e a forma de vida que Chris sempre sonhou. Woody Allen mostra Chris fazendo compras em ícones do consumo sofisticado, Ralph Lauren, Cartier; o que serve para caracterizar as preferências do personagem e o tipo de vida que ele almeja.
A cena do jogo de Pingue-Pongue na qual Nola (Scarlett Johansson), namorada de Tom, convida Chris para jogar e ele pergunta: “No que eu estou me metendo?” Para, logo em seguida, fazer uma jogada arrasadora. E ela, então, pergunta de volta: “No que eu estou me metendo?” resume perfeitamente a relação dos dois a partir dali e antevê a enrascada em que ambos se meterão. Mais tarde, em um café, após Nola ter sido reprovada em sua audição, o “pingue-pongue” continua, durante o diálogo, Nola afirma para Chris que sabe o efeito que causa nos homens e Chris rebate com a seguinte pergunta: “onde é que estava essa confiança toda quando você foi fazer sua audição?”. Ao longo do filme, vamos acabar confirmando que Nola realmente não é tão confiante quanto parece. Aliás, é o contrário disso. Lola, em seu apartamento, comenta com Chris sobre os assaltos na vizinhança e que o apartamento da vizinha dela tem problemas com ratos. Sem perceber, ela elabora um plano para ele.
O filme realiza viradas surpreendentes e realmente lembra um jogo de tênis, em que hora o jogo está para alguém e, em outra, para outro, mas o ponto final será de um só deles.
A partir da última cena, podemos chegar a duas conclusões, se não contrárias, pelo menos conflitantes. Quando Tom comenta sobre o sobrinho recém nascido, desejando não que ele seja brilhante, mas sim que ele tenha sorte, deduz-se que uma pessoa com sorte tem tudo. Mas, ao vermos Chris em primeiro plano, isolado e angustiado naquela cena familiar e alegre da qual ele deveria participar, podemos também concluir como Dostoievski em seu clássico livro: “O castigo pelo crime amendontra muito menos o criminoso [...] porque ele mesmo o reclama moralmente”. Chris pode ter tido a sorte de não ser descoberto, mas será que terá a sorte de esquecer?
Na Natureza Selvagem
Na Natureza Selvagem (2007)
Branca Machado – 14/05/2008
“Na natureza Selvagem” começa com uma citação de Lorde Byron: “Não amo menos o homem, mas mais a natureza”.Numa separação que, particularmente, nunca achei muito fácil. Como “não amo menos o homem, mas mais a natureza”? No fundo, um não está contido no outro? O homem não é parte da natureza?
Como o colega Roberto Domingues de Moraes escreveu na sua coluna de maio, tendemos a dividir nossa percepção do mundo “entre o que achamos proveitoso ou nocivo de acordo com nossas inclinações momentâneas”. Para Chris McCandless (Emily Hirsch), o protagonista do filme, a natureza era proveitosa e o homem, o elemento nocivo.
O filme é dirigido por Sean Penn e baseado no livro homônimo do jornalista John Krakaeur que refez a trajetória real de Chris pelo interior dos Estados Unidos até seu objetivo final de viver no Alasca, em meio à natureza selvagem.
No início, vemos Chris chegar ao estado e o motorista que lhe dá carona chama: “Você deixou suas coisas no painel!” E ele responde: “Pode ficar!” Sempre desprendido, sem se importar com coisas materiais, agora sim ele está onde sempre quis. Numa espécie de enfim sós, há somente ele e a natureza. Chris carregava um diário e, nele, escreveu: “Há 02 anos ele vaga pela Terra sem telefone, sem piscina, sem bicho de estimação, sem cigarros”.Isto é algo de que ele se orgulha. Cada vez mais, ele precisa de menos.
Então, agora que sabemos que ele chegou, o filme retroage dois anos, à época de sua formatura. Ele se forma e os pais comemoram com um jantar. No restaurante, após os pais lhe oferecerem um carro novo de presente, ele replica: “Para quê eu quero um carro novo? Eu não quero nada! Tudo são coisas. Coisas. Coisas!”.Percebe-se que há um conflito ideológico e tenso entre pai e filho. Pela narração de sua irmã, ficamos sabendo que ele tinha um rigoroso e próprio código moral. Com Wayne (Vince Vaughn), ele comenta: “Não entendo por que as pessoas são más o tempo todo!” E o amigo replica: “Você não devia levar tudo a ferro e fogo!”.E é assim mesmo que Chris se comporta. De uma pureza quase infantil, ele não admite nada que não seja totalmente puro. Não perdoa muita coisa. E não perdoa, principalmente, a seus pais. Para ser como Chris exigia, somente a natureza... Em seu desaparecimento, ele muda até de nome, passa a se chamar Alex Supertramp.
Sean Penn faz uso da montagem paralela de maneira eficiente. Ele mostra Chris andando, filmado de costas, quando resolve deixar tudo, e os pais o procurando; o amigo o ensinando a sobreviver na selva e ele anotando. Além de economizar tempo de narrativa, o diretor cria significados maiores colocando uma cena ao lado da outra. Na primeira, com o filho andando de costas e os pais angustiados, mostra-se um afastamento emblemático entre estes e o filho. Na segunda, voltamos ao primário com um aluno fazendo anotações em um caderno de espiral. Não é com esse preparo que se sobrevive no Alasca...
As imagens da natureza são lindas. Verdadeiros cartões postais. Em alguns momentos, dá até para entender a escolha do personagem... Quando Sean Penn enfatiza o choque de Chris/Alex chegando à cidade grande, sentimos a mesma coisa. A cidade causa estranhamento. Agride. Era melhor fora dali. É preciso que a gente pense assim, que a gente o entenda. A câmera lenta, o congelamento, ele está refletindo... Sabemos disso. Ele vive assim por opção.
Em uma conversa entre Alex/Chris e Wayne, este pergunta: “O que você vai ficar fazendo no meio da natureza selvagem do Alasca?” Ele responde:”Vivendo!”. Até então, para Chris, a vida era aquilo. Ele teve que passar por muita coisa para amadurecer. Afinal, as pessoas têm histórias. Algumas, piores. Algumas, melhores. É preciso saber encarar. Chris lia muito, principalmente as obras de Liev Tolstoi e Thoreau. Mas costumava interpretá-las também de uma maneira imatura. Quando ele finalmente cresce, escreve em seu caderno: “A felicidade só é real quando compartilhada”. E o mais significativo é que, no momento em que ele descobre isso, ele volta a assinar como Chris McCandless.
Branca Machado – 14/05/2008
“Na natureza Selvagem” começa com uma citação de Lorde Byron: “Não amo menos o homem, mas mais a natureza”.Numa separação que, particularmente, nunca achei muito fácil. Como “não amo menos o homem, mas mais a natureza”? No fundo, um não está contido no outro? O homem não é parte da natureza?
Como o colega Roberto Domingues de Moraes escreveu na sua coluna de maio, tendemos a dividir nossa percepção do mundo “entre o que achamos proveitoso ou nocivo de acordo com nossas inclinações momentâneas”. Para Chris McCandless (Emily Hirsch), o protagonista do filme, a natureza era proveitosa e o homem, o elemento nocivo.
O filme é dirigido por Sean Penn e baseado no livro homônimo do jornalista John Krakaeur que refez a trajetória real de Chris pelo interior dos Estados Unidos até seu objetivo final de viver no Alasca, em meio à natureza selvagem.
No início, vemos Chris chegar ao estado e o motorista que lhe dá carona chama: “Você deixou suas coisas no painel!” E ele responde: “Pode ficar!” Sempre desprendido, sem se importar com coisas materiais, agora sim ele está onde sempre quis. Numa espécie de enfim sós, há somente ele e a natureza. Chris carregava um diário e, nele, escreveu: “Há 02 anos ele vaga pela Terra sem telefone, sem piscina, sem bicho de estimação, sem cigarros”.Isto é algo de que ele se orgulha. Cada vez mais, ele precisa de menos.
Então, agora que sabemos que ele chegou, o filme retroage dois anos, à época de sua formatura. Ele se forma e os pais comemoram com um jantar. No restaurante, após os pais lhe oferecerem um carro novo de presente, ele replica: “Para quê eu quero um carro novo? Eu não quero nada! Tudo são coisas. Coisas. Coisas!”.Percebe-se que há um conflito ideológico e tenso entre pai e filho. Pela narração de sua irmã, ficamos sabendo que ele tinha um rigoroso e próprio código moral. Com Wayne (Vince Vaughn), ele comenta: “Não entendo por que as pessoas são más o tempo todo!” E o amigo replica: “Você não devia levar tudo a ferro e fogo!”.E é assim mesmo que Chris se comporta. De uma pureza quase infantil, ele não admite nada que não seja totalmente puro. Não perdoa muita coisa. E não perdoa, principalmente, a seus pais. Para ser como Chris exigia, somente a natureza... Em seu desaparecimento, ele muda até de nome, passa a se chamar Alex Supertramp.
Sean Penn faz uso da montagem paralela de maneira eficiente. Ele mostra Chris andando, filmado de costas, quando resolve deixar tudo, e os pais o procurando; o amigo o ensinando a sobreviver na selva e ele anotando. Além de economizar tempo de narrativa, o diretor cria significados maiores colocando uma cena ao lado da outra. Na primeira, com o filho andando de costas e os pais angustiados, mostra-se um afastamento emblemático entre estes e o filho. Na segunda, voltamos ao primário com um aluno fazendo anotações em um caderno de espiral. Não é com esse preparo que se sobrevive no Alasca...
As imagens da natureza são lindas. Verdadeiros cartões postais. Em alguns momentos, dá até para entender a escolha do personagem... Quando Sean Penn enfatiza o choque de Chris/Alex chegando à cidade grande, sentimos a mesma coisa. A cidade causa estranhamento. Agride. Era melhor fora dali. É preciso que a gente pense assim, que a gente o entenda. A câmera lenta, o congelamento, ele está refletindo... Sabemos disso. Ele vive assim por opção.
Em uma conversa entre Alex/Chris e Wayne, este pergunta: “O que você vai ficar fazendo no meio da natureza selvagem do Alasca?” Ele responde:”Vivendo!”. Até então, para Chris, a vida era aquilo. Ele teve que passar por muita coisa para amadurecer. Afinal, as pessoas têm histórias. Algumas, piores. Algumas, melhores. É preciso saber encarar. Chris lia muito, principalmente as obras de Liev Tolstoi e Thoreau. Mas costumava interpretá-las também de uma maneira imatura. Quando ele finalmente cresce, escreve em seu caderno: “A felicidade só é real quando compartilhada”. E o mais significativo é que, no momento em que ele descobre isso, ele volta a assinar como Chris McCandless.
O Homem Urso
O Homem-Urso (2005)
Branca Moura Machado
O Homem-Urso é um documentário diferente. A maioria das suas cenas foi coletada pelo próprio documentado, Timothy Treadwell. Werner Herzog, diretor do filme, aproveitou grande parte das filmagens que Treadwell gravou durante suas expedições ao Alaska, nos verões que passou em visita aos Ursos-Pardos.
Por 13 verões consecutivos, o ecologista foi para o Alaska viver desarmado entre esses animais. Nas últimas 05 vezes, ele documentou sua viagem com uma câmera. Herzog utiliza essas filmagens para explorar a personalidade de Treadwell e levantar questões sobre suas escolhas e também de como elas acabaram se tornando “a crônica de uma morte anunciada”. Herzog considera Treadwell um cineasta, então o filme assume um aspecto interessante em que assistimos a um cineasta trabalhar com imagens e idéias de outro cineasta. Os comentários de Herzog debatendo as opiniões do próprio Treadwell dão um caráter único ao filme, parece que ele dialoga com o ecologista, discute, questiona suas escolhas, apesar de admirá-lo. Ele realiza um contraponto interessante sem querer condenar ou transformar Treadwell em herói ou mártir.
Em um certo momento, ao refletir sobre uma imagem captada por Treadwell, Herzog comenta que algumas cenas filmadas pelo ecologista assumem vida própria. E trata-se disso mesmo: as cenas adquirem um significado que Treadwell com certeza não pretendia. Quando Treadwell filma uma abelha aparentemente morta sobre uma flor e comenta chateado que ela morreu realizando seu trabalho, ele resume seu próprio destino, já que considerava aquelas expedições seu trabalho, sua vida. Aquela cena, influenciada pelo contexto, assume um caráter premonitório.
As imagens do ecologista e os ursos, em que “contracena” com eles, impressionam pela proximidade em que ele se encontra dos animais, pela coragem e audácia que ele tinha diante daqueles animais selvagens. Ele conversa com a câmera, em primeiro plano, com um urso (ou vários) bem atrás dele e se movimentando. É de arrepiar. Treadwell realmente se considerava um deles, achava que pertencia mais àquela comunidade do que à nossa. E, talvez, tenha sido esse seu erro. Em um certo momento do filme, Herzog entrevista um morador local que considera que Treadwell desrespeitou os ursos, já que “o lugar deles é lá e o nosso é aqui”. É triste também constatar que aqueles ursos, por viverem em uma reserva, na verdade não precisavam de ajuda. Aquele “trabalho” ironicamente era vital para Treadwell e não para os ursos.
Branca Moura Machado
O Homem-Urso é um documentário diferente. A maioria das suas cenas foi coletada pelo próprio documentado, Timothy Treadwell. Werner Herzog, diretor do filme, aproveitou grande parte das filmagens que Treadwell gravou durante suas expedições ao Alaska, nos verões que passou em visita aos Ursos-Pardos.
Por 13 verões consecutivos, o ecologista foi para o Alaska viver desarmado entre esses animais. Nas últimas 05 vezes, ele documentou sua viagem com uma câmera. Herzog utiliza essas filmagens para explorar a personalidade de Treadwell e levantar questões sobre suas escolhas e também de como elas acabaram se tornando “a crônica de uma morte anunciada”. Herzog considera Treadwell um cineasta, então o filme assume um aspecto interessante em que assistimos a um cineasta trabalhar com imagens e idéias de outro cineasta. Os comentários de Herzog debatendo as opiniões do próprio Treadwell dão um caráter único ao filme, parece que ele dialoga com o ecologista, discute, questiona suas escolhas, apesar de admirá-lo. Ele realiza um contraponto interessante sem querer condenar ou transformar Treadwell em herói ou mártir.
Em um certo momento, ao refletir sobre uma imagem captada por Treadwell, Herzog comenta que algumas cenas filmadas pelo ecologista assumem vida própria. E trata-se disso mesmo: as cenas adquirem um significado que Treadwell com certeza não pretendia. Quando Treadwell filma uma abelha aparentemente morta sobre uma flor e comenta chateado que ela morreu realizando seu trabalho, ele resume seu próprio destino, já que considerava aquelas expedições seu trabalho, sua vida. Aquela cena, influenciada pelo contexto, assume um caráter premonitório.
As imagens do ecologista e os ursos, em que “contracena” com eles, impressionam pela proximidade em que ele se encontra dos animais, pela coragem e audácia que ele tinha diante daqueles animais selvagens. Ele conversa com a câmera, em primeiro plano, com um urso (ou vários) bem atrás dele e se movimentando. É de arrepiar. Treadwell realmente se considerava um deles, achava que pertencia mais àquela comunidade do que à nossa. E, talvez, tenha sido esse seu erro. Em um certo momento do filme, Herzog entrevista um morador local que considera que Treadwell desrespeitou os ursos, já que “o lugar deles é lá e o nosso é aqui”. É triste também constatar que aqueles ursos, por viverem em uma reserva, na verdade não precisavam de ajuda. Aquele “trabalho” ironicamente era vital para Treadwell e não para os ursos.
Separados pelo casamento
Separados pelo Casamento (2006)
Branca Moura Machado
O filme “Separados pelo Casamento” de Peyton Reed é um filme sobre uma mulher e um homem comuns tentando manter seu relacionamento. Não se trata de uma comédia romântica, apesar de ter algumas características dela, mas do retrato de um relacionamento amoroso e, assim, vem com a dose de humor e drama que necessariamente o acompanham. Um filme como “Sobre ontem à noite” e “Irmãos McMullen”, entre outros: despretensioso, quer apenas contar a história de um relacionamento comum, desses que a gente vê e se identifica. Estamos na tela, nossos dramas cotidianos retratados, sem enfeites ou soluções fantasiosas.
Brooke (Jennifer Aniston) e Gary (Vince Vaughn) namoram e moram juntos há dois anos. O namoro já não é mais tão empolgante e aqueles defeitos um do outro que, antes, achavam perfeitamente superáveis, já se tornaram bastante incômodos.Numa noite, após um jantar de integração entre suas famílias, acabam terminando. Mas continuam morando no mesmo apartamento até que ele seja vendido. O que vemos a partir dali são duas pessoas agindo exatamente ao contrário do que estão pensando e sentindo. Gostam um do outro, querem voltar, mas nunca vão assumir isso e, dessa forma, começam a se torturar. O filme passa, então, a mostrar os joguinhos emocionais do casal com os quais nos identificamos plenamente.
A começar pela briga que dá origem ao rompimento do casal. Tudo ali é originado pela falta de entendimento entre as mensagens emocionais femininas e a sensibilidade masculina. A mulher é mais metafórica, quer que o homem entenda as entrelinhas. Já o homem é direto e quer tudo dito e bem explicado. Brooke briga com Gary porque ele não se oferece para ajudá-la a lavar a louça após o jantar. E, após ela ter de pedir isso a ele, já não adianta mais Gary se levantar para lavar a louça. Depois de cobrada, aquela atitude já não tem valor nenhum. No momento, parece que ela briga por causa de nada, mas, na verdade, é por causa de tudo. É interessante notar que, mais ao final do filme, Gary tem uma discussão com seu irmão mais velho, Dennis (Vincent D´Onofrio), que também é seu sócio, e esta discussão de certa forma é parecida com a que ele tem com Brooke após o jantar. O irmão reclama das mesmas coisas que ela. Ou seja, não se trata de mera maluquice feminina, ou da famosa “TPM”, Brooke, talvez, tivesse razão ao ter estourado daquela forma.
O filme possui algumas cenas cuja montagem é interessante. A cena em que Gary está jogando e Brooke passa nua na frente dele é construída da seguinte forma: ele olha para ela e para o videogame em que está lutando boxe, olha para ela e para o videogame e, finalmente, leva o nocaute no videogame. A reação dele não é mostrada em palavras ou, até mesmo em sua expressão, mas o nocaute já conclui de maneira eficiente o efeito da passagem de Brooke. A montagem do elevador, em que a imagem de Gary funde-se, na medida em que a porta do elevador se fecha, com a do pretendente dela que está no corredor, também é carregada de simbolismos.
Como já foi dito, a identificação é um dos aspectos que mais agrada no filme. São temas recorrentes a qualquer casal. Quando eles jogam Imagem e Ação, Brooke desenha uma meia e Gary aparece desesperado, tentando adivinhar do que aquele desenho se trata. Praticamente todo homem se desespera com sua namorada quando eles estão perdendo um jogo no qual estão em dupla. Não há hipótese de perderem o jogo por causa dele. A cena na qual Brooke está sentada, sozinha, com o público todo se divertindo a sua volta no show do The OLD 97´s também é emblemática. Ela está, mas não está ali. Brooke queria tanto ir ao show, mas, ao final, é nele que ela cai na real. Que sente o baque da separação. Isso acontece em nossas vidas: sozinhos na multidão. Quando nosso drama particular está com a gente, sentimos-nos exatamente daquele modo em algum evento público ou social.
Quando o filme se aproxima do lugar comum e do exagero, ele fica ruim. Como por exemplo, quando o irmão (possivelmente gay) de Brooke bate em Gary ou quando ela vai conversar com a patroa e a patroa está usando um homem nu como modelo para um desenho. Tais cenas não são necessárias ao filme e, sem elas, ele ficaria ainda melhor. Aliás, a família de Brooke, como também sua patroa, é mostrada de forma caricatural. São personagens irreais em um drama dos mais reais, o que prejudica o filme. Quando eles aparecem, quebram nossa identificação.
O final é eficiente e natural. Aquele casal, naquele momento, não ia conseguir ficar junto. Eles tinham dito muita coisa e se machucado muito. Mas, num encontro casual, daqui a algum tempo, quem sabe?
Branca Moura Machado
O filme “Separados pelo Casamento” de Peyton Reed é um filme sobre uma mulher e um homem comuns tentando manter seu relacionamento. Não se trata de uma comédia romântica, apesar de ter algumas características dela, mas do retrato de um relacionamento amoroso e, assim, vem com a dose de humor e drama que necessariamente o acompanham. Um filme como “Sobre ontem à noite” e “Irmãos McMullen”, entre outros: despretensioso, quer apenas contar a história de um relacionamento comum, desses que a gente vê e se identifica. Estamos na tela, nossos dramas cotidianos retratados, sem enfeites ou soluções fantasiosas.
Brooke (Jennifer Aniston) e Gary (Vince Vaughn) namoram e moram juntos há dois anos. O namoro já não é mais tão empolgante e aqueles defeitos um do outro que, antes, achavam perfeitamente superáveis, já se tornaram bastante incômodos.Numa noite, após um jantar de integração entre suas famílias, acabam terminando. Mas continuam morando no mesmo apartamento até que ele seja vendido. O que vemos a partir dali são duas pessoas agindo exatamente ao contrário do que estão pensando e sentindo. Gostam um do outro, querem voltar, mas nunca vão assumir isso e, dessa forma, começam a se torturar. O filme passa, então, a mostrar os joguinhos emocionais do casal com os quais nos identificamos plenamente.
A começar pela briga que dá origem ao rompimento do casal. Tudo ali é originado pela falta de entendimento entre as mensagens emocionais femininas e a sensibilidade masculina. A mulher é mais metafórica, quer que o homem entenda as entrelinhas. Já o homem é direto e quer tudo dito e bem explicado. Brooke briga com Gary porque ele não se oferece para ajudá-la a lavar a louça após o jantar. E, após ela ter de pedir isso a ele, já não adianta mais Gary se levantar para lavar a louça. Depois de cobrada, aquela atitude já não tem valor nenhum. No momento, parece que ela briga por causa de nada, mas, na verdade, é por causa de tudo. É interessante notar que, mais ao final do filme, Gary tem uma discussão com seu irmão mais velho, Dennis (Vincent D´Onofrio), que também é seu sócio, e esta discussão de certa forma é parecida com a que ele tem com Brooke após o jantar. O irmão reclama das mesmas coisas que ela. Ou seja, não se trata de mera maluquice feminina, ou da famosa “TPM”, Brooke, talvez, tivesse razão ao ter estourado daquela forma.
O filme possui algumas cenas cuja montagem é interessante. A cena em que Gary está jogando e Brooke passa nua na frente dele é construída da seguinte forma: ele olha para ela e para o videogame em que está lutando boxe, olha para ela e para o videogame e, finalmente, leva o nocaute no videogame. A reação dele não é mostrada em palavras ou, até mesmo em sua expressão, mas o nocaute já conclui de maneira eficiente o efeito da passagem de Brooke. A montagem do elevador, em que a imagem de Gary funde-se, na medida em que a porta do elevador se fecha, com a do pretendente dela que está no corredor, também é carregada de simbolismos.
Como já foi dito, a identificação é um dos aspectos que mais agrada no filme. São temas recorrentes a qualquer casal. Quando eles jogam Imagem e Ação, Brooke desenha uma meia e Gary aparece desesperado, tentando adivinhar do que aquele desenho se trata. Praticamente todo homem se desespera com sua namorada quando eles estão perdendo um jogo no qual estão em dupla. Não há hipótese de perderem o jogo por causa dele. A cena na qual Brooke está sentada, sozinha, com o público todo se divertindo a sua volta no show do The OLD 97´s também é emblemática. Ela está, mas não está ali. Brooke queria tanto ir ao show, mas, ao final, é nele que ela cai na real. Que sente o baque da separação. Isso acontece em nossas vidas: sozinhos na multidão. Quando nosso drama particular está com a gente, sentimos-nos exatamente daquele modo em algum evento público ou social.
Quando o filme se aproxima do lugar comum e do exagero, ele fica ruim. Como por exemplo, quando o irmão (possivelmente gay) de Brooke bate em Gary ou quando ela vai conversar com a patroa e a patroa está usando um homem nu como modelo para um desenho. Tais cenas não são necessárias ao filme e, sem elas, ele ficaria ainda melhor. Aliás, a família de Brooke, como também sua patroa, é mostrada de forma caricatural. São personagens irreais em um drama dos mais reais, o que prejudica o filme. Quando eles aparecem, quebram nossa identificação.
O final é eficiente e natural. Aquele casal, naquele momento, não ia conseguir ficar junto. Eles tinham dito muita coisa e se machucado muito. Mas, num encontro casual, daqui a algum tempo, quem sabe?
Tristão e Isolda
Tristão e Isolda (2006)
Branca Moura Machado
Quem não tem saudade de uma clássica história de amor? Ultimamente, em matéria de amor, só temos assistido a comédias românticas, normalmente com a mesma fórmula: casal se encontra, casal se desencontra, ficam juntos, separam-se, um deles resolve ir embora, o outro impede e ficam juntos para sempre. O lugar de um clássico e trágico romance é sempre garantido e Tristão e Isolda só comprova o fato.
O filme, dirigido por Kevin Reynolds, resgata toda a aflição e o sofrimento que um amor impossível traz. Voltamos ao encantamento de Romeu e Julieta, Lancelot e Guinevere, entre outros: Trata-se de um amor condenado, mas, mesmo assim, torcemos por ele...
Após ser considerado morto, Tristão (James Franco) é salvo por Isolda (Sophya Miles). Eles se apaixonam, mas Isolda não revela para Tristão, um guerreiro britânico, que é a filha de um rei que é também seu maior inimigo. O romance começa com uma mentira e por causa dela não poderá terminar bem.
Depois de curado, Tristão volta para seu reino, aliás, o reino de Lorde Marke (Rufus Sewell), o “tio” que o criou e salvou sua vida. Mas já não é o mesmo. Sofrendo com a saudade e a paixão, ele é recebido com festa, entretanto, seu lugar não é mais ali. Quando Donnchadh, pai de Isolda, organiza um campeonato de lutas e promete como prêmio a mão de sua filha, Tristão ganha a disputa para seu “tio” e descobre que o prêmio é seu grande amor.
Tristão passa a ser um homem torturado. Divide-se entre os sentimentos de culpa e raiva. Ele nunca está totalmente à vontade, como nós também não estamos. Ficamos divididos entre nosso respeito a Marke e a torcida pelo amor de Tristão e Isolda. O filme, a partir daí, realiza cenas dramáticas com duplos significados nas quais sabemos de fatos que a maioria dos personagens não sabem, tornando-nos, desse modo, cúmplices do casal. São cenas lindas, mas, pela cumplicidade, sempre melancólicas.
Os diálogos são perfeitamente resgatados ao longo da história. Muito bem amarrados, um encaixa no outro, como quando Tristão acaba de agradecer a bondade de Isolda por cuidar dos ferimentos dele e ela pergunta de que os pais dele morreram e ele responde que seus pais morreram da “outra” bondade irlandesa. O fim do filme, se não nos satisfaz, pelo menos nos consola. Saímos com a certeza de que o amor continua ao longo do tempo e das grandes histórias.
Branca Moura Machado
Quem não tem saudade de uma clássica história de amor? Ultimamente, em matéria de amor, só temos assistido a comédias românticas, normalmente com a mesma fórmula: casal se encontra, casal se desencontra, ficam juntos, separam-se, um deles resolve ir embora, o outro impede e ficam juntos para sempre. O lugar de um clássico e trágico romance é sempre garantido e Tristão e Isolda só comprova o fato.
O filme, dirigido por Kevin Reynolds, resgata toda a aflição e o sofrimento que um amor impossível traz. Voltamos ao encantamento de Romeu e Julieta, Lancelot e Guinevere, entre outros: Trata-se de um amor condenado, mas, mesmo assim, torcemos por ele...
Após ser considerado morto, Tristão (James Franco) é salvo por Isolda (Sophya Miles). Eles se apaixonam, mas Isolda não revela para Tristão, um guerreiro britânico, que é a filha de um rei que é também seu maior inimigo. O romance começa com uma mentira e por causa dela não poderá terminar bem.
Depois de curado, Tristão volta para seu reino, aliás, o reino de Lorde Marke (Rufus Sewell), o “tio” que o criou e salvou sua vida. Mas já não é o mesmo. Sofrendo com a saudade e a paixão, ele é recebido com festa, entretanto, seu lugar não é mais ali. Quando Donnchadh, pai de Isolda, organiza um campeonato de lutas e promete como prêmio a mão de sua filha, Tristão ganha a disputa para seu “tio” e descobre que o prêmio é seu grande amor.
Tristão passa a ser um homem torturado. Divide-se entre os sentimentos de culpa e raiva. Ele nunca está totalmente à vontade, como nós também não estamos. Ficamos divididos entre nosso respeito a Marke e a torcida pelo amor de Tristão e Isolda. O filme, a partir daí, realiza cenas dramáticas com duplos significados nas quais sabemos de fatos que a maioria dos personagens não sabem, tornando-nos, desse modo, cúmplices do casal. São cenas lindas, mas, pela cumplicidade, sempre melancólicas.
Os diálogos são perfeitamente resgatados ao longo da história. Muito bem amarrados, um encaixa no outro, como quando Tristão acaba de agradecer a bondade de Isolda por cuidar dos ferimentos dele e ela pergunta de que os pais dele morreram e ele responde que seus pais morreram da “outra” bondade irlandesa. O fim do filme, se não nos satisfaz, pelo menos nos consola. Saímos com a certeza de que o amor continua ao longo do tempo e das grandes histórias.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Há tanto tempo que te amo
Há tanto tempo que te amo (2009)
Branca Moura Machado – 07/07/2009
A música que toca ao final de “Há tanto tempo que te amo” diz: “Porque do tempo que passa nos resta pouco e do tempo perdido não nos resta nada.” Para algumas pessoas, talvez, seja esta a intenção: perder tempo e não reter nada dele.
Este é o caso de Juliette (Kristin Scott Thomas) que acaba de sair da prisão, após 15 anos. Sobre o tempo que passou por lá, comenta: “Na prisão, chamavam-me de ausente. Eu dava a impressão de não estar ali”. Juliette não queria mesmo estar no mundo e a prisão foi o modo que escolheu para se livrar dele.
Léa (Elsa Zylberstein), sua única irmã, vai buscá-la no aeroporto e recebê-la em sua casa até que Juliette se ajuste à nova vida. As irmãs passaram quase quinze anos sem se ver e há um grande desconforto neste contato inicial, apesar dos esforços de Léa.
Quando Juliette fica sozinha na casa da irmã, ela apalpa o sofá, olha pela janela, acaricia os livros. Como se reconhecendo um mundo ao qual não tinha mais direito. Ela cometeu um crime impronunciável. Impronunciável até mesmo para o diretor Phillipe Claudel. Que mantém o crime em suspense durante todo o início do filme. Para ele, também é difícil escancarar o que Juliette fez. Sabemos que o que ela fez foi grave quando, por exemplo, o marido de Léa comenta: “Você mal a conhece. Ainda era criança quando ela...” E ele não consegue terminar a frase.
Juliette quase não fala. Há muitos closes da personagem. A intenção é salientar suas expressões, já que ela é de poucas palavras. Ela deixou muitas dúvidas e não faz muito esforço para esclarecê-las. E, algumas vezes, suas reações nos parecem sem sentido, mas indicam muita coisa.
Há cenas leves que terminam tensas, contribuindo com o suspense. Como quando a sobrinha mais velha apresenta seu quarto para a tIa Juliette e, antes disso, retira a irmã caçula do ambiente e comenta: “As irmãs caçulas não são fáceis”. Depois, mostra seu diário e explica: “Este é o meu diário secreto. Mas não é tão secreto porque largo por aí e todo mundo lê”. Tudo está bem até que a tia grita com a menina quando esta lhe pede para contar uma história. Todos ficamos chocados com a reação de Juliette. E com uma pulga atrás da orelha. O suspense aumenta no diálogo entre a personagem e sua agente social: “Você não falou nada durante o processo. O relatório final tinha 20 linhas.” E a protagonista responde: “Se não falei nada à época, por que acha que vou falar para você?”
O filme lembra “A vida dos outros”, “O visitante”, entre outros no sentido de assistirmos à transformação da protagonista ao entrar na vida da irmã. Aos poucos, ela vai se abrindo, o gelo vai se quebrando e ela passa a viver novamente. Juliette guardava um segredo e quando a irmã a confronta ela explica: “explicar é procurar desculpas e não há desculpas para a morte.”
Roberto Pompeu de Toledo, em sua crônica sobre os jovens que cedo foram à lua, comenta que deles foi roubado o princípio basilar da esperança de que o importante ainda está para começar. Juliette passou 15 anos de sua vida como estes astronautas, ou seja, na percepção de que o melhor já passou ou o que tinha de pior já aconteceu e não há mais nada para se olhar. Mas, ao reencontar a irmã e aos poucos se sentir em família, talvez haja sim uma ponta de esperança. Afinal, como ela mesma diz, ela está aqui. Está de volta.
Branca Moura Machado – 07/07/2009
A música que toca ao final de “Há tanto tempo que te amo” diz: “Porque do tempo que passa nos resta pouco e do tempo perdido não nos resta nada.” Para algumas pessoas, talvez, seja esta a intenção: perder tempo e não reter nada dele.
Este é o caso de Juliette (Kristin Scott Thomas) que acaba de sair da prisão, após 15 anos. Sobre o tempo que passou por lá, comenta: “Na prisão, chamavam-me de ausente. Eu dava a impressão de não estar ali”. Juliette não queria mesmo estar no mundo e a prisão foi o modo que escolheu para se livrar dele.
Léa (Elsa Zylberstein), sua única irmã, vai buscá-la no aeroporto e recebê-la em sua casa até que Juliette se ajuste à nova vida. As irmãs passaram quase quinze anos sem se ver e há um grande desconforto neste contato inicial, apesar dos esforços de Léa.
Quando Juliette fica sozinha na casa da irmã, ela apalpa o sofá, olha pela janela, acaricia os livros. Como se reconhecendo um mundo ao qual não tinha mais direito. Ela cometeu um crime impronunciável. Impronunciável até mesmo para o diretor Phillipe Claudel. Que mantém o crime em suspense durante todo o início do filme. Para ele, também é difícil escancarar o que Juliette fez. Sabemos que o que ela fez foi grave quando, por exemplo, o marido de Léa comenta: “Você mal a conhece. Ainda era criança quando ela...” E ele não consegue terminar a frase.
Juliette quase não fala. Há muitos closes da personagem. A intenção é salientar suas expressões, já que ela é de poucas palavras. Ela deixou muitas dúvidas e não faz muito esforço para esclarecê-las. E, algumas vezes, suas reações nos parecem sem sentido, mas indicam muita coisa.
Há cenas leves que terminam tensas, contribuindo com o suspense. Como quando a sobrinha mais velha apresenta seu quarto para a tIa Juliette e, antes disso, retira a irmã caçula do ambiente e comenta: “As irmãs caçulas não são fáceis”. Depois, mostra seu diário e explica: “Este é o meu diário secreto. Mas não é tão secreto porque largo por aí e todo mundo lê”. Tudo está bem até que a tia grita com a menina quando esta lhe pede para contar uma história. Todos ficamos chocados com a reação de Juliette. E com uma pulga atrás da orelha. O suspense aumenta no diálogo entre a personagem e sua agente social: “Você não falou nada durante o processo. O relatório final tinha 20 linhas.” E a protagonista responde: “Se não falei nada à época, por que acha que vou falar para você?”
O filme lembra “A vida dos outros”, “O visitante”, entre outros no sentido de assistirmos à transformação da protagonista ao entrar na vida da irmã. Aos poucos, ela vai se abrindo, o gelo vai se quebrando e ela passa a viver novamente. Juliette guardava um segredo e quando a irmã a confronta ela explica: “explicar é procurar desculpas e não há desculpas para a morte.”
Roberto Pompeu de Toledo, em sua crônica sobre os jovens que cedo foram à lua, comenta que deles foi roubado o princípio basilar da esperança de que o importante ainda está para começar. Juliette passou 15 anos de sua vida como estes astronautas, ou seja, na percepção de que o melhor já passou ou o que tinha de pior já aconteceu e não há mais nada para se olhar. Mas, ao reencontar a irmã e aos poucos se sentir em família, talvez haja sim uma ponta de esperança. Afinal, como ela mesma diz, ela está aqui. Está de volta.
Assinar:
Postagens (Atom)