quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

"Cisne Negro" trata do nosso duplo. Aquele que a gente tenta esconder a qualquer custo. O filme é em si dicotômico, já que seu tema é o ballet, a beleza, mas sua atmosfera é sombria, claustrofóbica e degradante. Acompanhamos a trajetória de Nina (Natalie Portman), obsessiva e reprimida, ao se tornar a primeira bailarina do corpo de baile em que trabalha. Sua primeira apresentação: Lago dos Cisnes. O coréografo Thomas (Vincent Cassel) esclarece qual o problema que vê na dançarina: "Se você fosse só o cisne branco, seria perfeita. Mas, agora, me mostre o cisne negro, Nina. Eu nunca a vejo se deixar levar." Ela argumenta que quer ser perfeita e ele comenta: "perfeição não está apenas em ter o controle". O filme é muito centrado no rosto dos personagens, principalmente nela. Parece que a câmera busca a mesma coisa que Thomas: o que há de visceral em Nina. Nesta busca pelo cisne negro, a bailarina desenvolve sua esquizofrenia latente. E finalmente encontra a perfeição que tanto buscou. Pena que é um caminho sem volta.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Além da Vida

Em Além da Vida, acompanhamos três histórias unidas pelo mesmo tema: O que acontece quando morremos? Esta busca vira uma espécie de maldição para o médium George (Matt Damon), obsessão para o adolescente Marcus (Frankie McLaren) e uma fonte de mudança para a jornalista Marie (Cécile De France). Dirigido por Clint Eastwood de forma lenta e reflexiva, constatamos, juntamente com o diretor, quanta exploração, dúvidas e especulação existem em relação ao assunto. Eastwood não tenta nos dar uma resposta, mostra apenas os vários caminhos que alguém que sofre uma grande perda ou chega perto da morte pode vir a tomar. O fato é que não há o caminho certo. Em determinado momento, Marcus pergunta sobre seu irmão gêmeo a George: "Para onde ele foi?" O vidente responde: "Não sei. Mesmo depois de tantas comunicações, eu ainda não sei...". George afirma que "uma vida centrada na morte não é vida". Esta, para mim, é a grande "moral da história".

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

José e Pilar

“Há um José antes e outro depois de Pilar”. Ao assistirmos ao tocante documentário de Miguel Gonçalves Mendes, constatamos que esta é mais profunda verdade. O cineasta acompanhou Saramago no processo de criação de seu último livro “A Viagem do Elefante”. Paralelamente, seguiu a vida incessante do casal José e Pilar entre diversos compromissos e viagens a Espanha, Brasil, México, Finlândia e Portugal. Nessa empreitada, descobriu uma relação de respeito mútuo, amor, diálogo; de todas as formas, invejável. Pilar é uma mulher forte que ajudou a difundir a obra do marido pelo mundo. Como ela afirma, sua vida era uma  declaração de amor a José. Saramago no dia a dia não nos decepciona soltando frases aqui e ali que mereciam ser escritas. Como o comentário sobre a performance de um cantor: “ Um momento que nos permite pensar que a morte não existe”; ou a linda conclusão a respeito da esposa: “Se eu não tivesse conhecido a Pilar, eu seria muito mais velho do que sou”.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Tropa de Elite 2

Da mesma forma que o Pantaleão, personagem criado pelo escritor Mario Vargas Llosa; o Capitão Nascimento (Wagner Moura), de Tropa de Elite 2, considera que "missão dada, parceiro, é missão cumprida". Tais personagens têm o mérito e, paradoxalmente, a sina de, a partir do momento em que se comprometem a cumprir determinada função, irem até o fim. São fascinantes neste sentido. Por isso, é empolgante assistir ao Capitão travar uma luta com tudo que vai contra a sua missão, mesmo que sozinho e fazendo inimigos importantes. Como a revista Veja definiu, Nascimento é o novo herói brasileiro. E "Tropa de Elite 2", nosso mais novo "arrasa quarteirão".Bem filmado, bem produzido, com grandes atuações. Desta vez, os traficantes são o menor dos problemas, já que o Capitão, agora Sub Secretário de Inteligência, intimida o tráfico, mas, com isso, sem perceber, fortalece as milícias, formadas por policiais e apoiadas por políticos corruptos. E, quando o mal se esconde por trás do bem, a estratégia de combate também se torna mais nebulosa.O inimigo agora é realmente outro. Muito pior e mais difícil de vencer...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O pequeno Nicolau

O Pequeno Nicolau (2010)


Branca Machado – 26/10/2010

Numa sala de aula, os alunos, de uns 07 anos, discutem a história “O Pequeno Polegar”. Para eles, o pai do personagem abandonou as crianças na floresta por que estava pobre, já que tinha muitos filhos. De repente, Joaquim, atrasado, entra na sala. A professora parabeniza o aluno que acabou de ganhar um irmãozinho. Esta virou a grande novidade da classe. Só se falava nisso. Joaquim está arrasado. É um horror ter um irmãozinho: "não pode gritar, tem que dividir o quarto, os brinquedos..." Nicolau (Maxime Godart), intrigado, procura saber como Joaquim descobriu que ia ganhar um irmãozinho e o amigo responde: "Meu pai estava bizarro. Ele estava bonzinho com minha mãe”. Nicolau, então, começa a observar os pais e, logo, conclui que ele também terá um irmãozinho.

Dirigido por Laurent Tirard, o filme é uma comédia infantil, cheia daquele humor inocente dos quadrinhos que costumávamos ler quando éramos pequenos. E não é por acaso, já que é baseado nas histórias infantis de René Goscinny de Le Petit Nicolas. Nicolau é uma criança que vive uma infância tranquila e feliz e não quer nenhuma mudança, principalmente, a concorrência de um irmão. A trama é bem amarrada e nos faz compreender as associações precipitadas do garoto.

Quando, no dia seguinte à notícia, Joaquim falta à escola, Nicolau, influenciado pela sua interpretação de O Pequeno Polegar, supõe que os pais do amigo deram sumiço nele para dar lugar ao irmão. E o pior é que, neste dia, seu próprio pai o convida para um passeio na floresta... Para completar, ele escuta o pai planejando um jantar para seu patrão e ouve a seguinte parte do diálogo: "O que vamos fazer com o Nicolau? Ele não vai poder ficar. Faz muita bagunça." Pronto! A confusão está armada.

Nicolau, apavorado, resolve formar uma liga secreta com seus amigos para salvá-lo. A primeira estratégia da liga é fazer com que Nicolau agrade os pais para eles desistirem de sumir com o filho, mas, como tudo o que ele faz só piora as coisas em casa, eles concluem que a saída será sumir com o bebê. Impossível, para mim, não lembrar dos planos infalíveis do Cebolinha para pegar o colelhinho da Mônica.

Somos enviados a um mundo infantil que já não é mais tão comum... Não há televisão, muito menos videogames, ou computador. A diversão é na rua, com a turma. As crianças têm menos informação, então, imaginam mais. A infância é mais pura. Nicolau, ao final, decidiu o que queria fazer quando crescesse: “Vou fazer as pessoas rirem”. Se depender do filme, já conseguiu.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Indie 2010

Pessoal,

 Desculpem-me por não ter atualizado o blog com a programação de filmes para BH neste início de setembro. Mas é que, de 02 a 09 de setembro, está ocorrendo em Belo Horizonte o Indie 2010, um festival de cinema independente que acontece na cidade desde 2001. São 119 filmes, de 19 países diferentes em 06 salas de cinema.
Não há como indicar um filme, já que, em sua maioria, são inéditos, mas é bom salientar que, muitas vezes, esta é a única oportunidade de assisti-los. Então, posso indicar o site, bem atrasada, da programação do festival, pelo menos para vocês saberem o que passou por aqui: http://www.indiefestival.com.br/indie2010/about.php.
Também posso ajudar com uma dica. Se vocês forem arriscar a pegar uma sessão nesses dois últimos dias, a entrada é franca e começa a ser distribuída meia hora antes do filme. Então, cheguem uns 45 minutos antes para poderem entrar na fila. Trata-se de uma fila interessante na qual você costuma encontrar pessoas que assistiram a praticamente todos os filmes do festival e, se não pudemos assisti-los, pelo menos ficamos sabendo a impressão destes cinéfilos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Tudo Pode Dar Certo

Branca Machado – 10/08/2010



Com título original “Whatever Works”, o filme “Tudo pode dar certo” teria melhor tradução se seu título fosse “O que funcionar.” Ou ainda, “O que der certo, ótimo”. Boris Yellnikoff (Larry David), o protagonista, um sujeito mal-humorado, cético, super sincero e cuja “prioridade nunca foi o charme” acaba nos dando uma lição de vida, ao nos dizer para deixar as coisas acontecerem. Em seu monólogo inicial, ele quebra a quarta parede e se dirige diretamente a nós, aconselhando: “Chega de “poderia ter" ou "deveria ter", contente-se com o que der certo”.

A partir daí, acompanharemos a trajetória do personagem, que, apesar de ter tentado o suicídio duas vezes (“obviamente, não funcionou”), nos explicará por que “se dá ao trabalho de viver”.O filme retrocede ao seu primeiro casamento. Para ele, a união não deu certo por que tudo se encaixava, combinava demais. E ele conclui para então esposa : “Na teoria, somos o ideal. Mas a vida não é o ideal.”

Boris é um físico nuclear aposentado que quase foi indicado ao Prêmio Nobel. Considera-se um gênio. Depois da separação, ele passou a dar aulas de xadrez para crianças e, ao ser questionado por uma mãe do motivo pelo qual ele havia jogado um tabuleiro de xadrez em seu filho, ele simplesmente responde: “Porque seu filho é um imbecil”. Ela rebate: “Meu filho é brilhante!” Ele conclui: “Na sua opinião”. Este é Boris. Um gênio que não faz a menor questão de agradar.

Depois de sermos apresentados apropriadamente ao personagem, conhecemos Melody Celestine (Evan Rachel Wood), uma jovem que, vinda do sul, encontra o protagonista na porta de seu apartamento em Chinatown e, após um breve diálogo, pede para morar com ele. Melody é inocente, doce e simplesmente considera todas as teorias de Boris grandes verdades, apesar de não entendê-las completamente. Ela pergunta: “Em que você é gênio?” Ele responde: “Em mecânica quântica”. E ela: “Tá. Mas em que campo? Filmes?” Ela também repete coisas do tipo: “Devia ter pena capital para aqueles que chamam mãe de mamãe e para os que não recolhem fezes de cachorro nas ruas”.

Trata-se de um casal inusitado. Sobre Melody, Boris reflete: “O que posso oferecer? Mau humor, pânico e misantropia? É tão absurdo que não dá para pensar! É tudo contra” Em uma perfeita rima com o diálogo que teve com a primeira esposa no qual dizia que o problema deles é que era tudo a favor. Ele acaba por concluir que o fator casualidade na vida é impressionante. E cede aos encantos de Melody. Um ano de casado e não foi o pior ano da vida dele...

Como nos principais filmes de Woody Allen, o grande trunfo de “Tudo pode dar Certo” são os diálogos inteligentes, as teses inusitadas, a síntese; a forma como ele faz graça com a vida e diz grandes verdades de forma leve e eficiente. O personagem principal é um suicida, mal humorado e manco e saímos do filme mais leves do que entramos! Está aí, novamente, o improvável. Boris, ao final, comenta: “Há pessoas lá fora nos assistindo. Não sei quantos restaram.” Estão todos lá, Woody.