sexta-feira, 3 de maio de 2024

NYAD

Elizabeth Chai Vasarhelyi, diretora de Nyad, afirmou que o filme é sobre “uma mulher com mais de 60 anos que percebeu que sua vida não tinha chegado ao fim, mesmo que o mundo tenha decidido que ela não existia mais”.  Ao reagir a esta percepção, a protagonista supera limites e torna-se protagonista de uma saga inspiradora.

Baseado na história real de Diana Nyad (Annette Bening), o filme mostra a trajetória da atleta, que nadou de Cuba até a Flórida aos 64 anos de idade, em mar aberto, numa cruzada de 177 Km, que durou 52 horas e 54 minutos dentro da água. Parece sobre-humano. E, se não chega a ser, é para bem poucos.

Quando Diana decidiu tentar a travessia, havia 16 milhões de pessoas no mundo que nadavam em águas abertas. 116 delas nadaram por mais de 24 horas seguidas. E o feito de superar 48 horas só havia sido alcançado por 12 pessoas na história.

O que ela alcançou já seria uma rara conquista aos 20 anos de idade, mas ela fez aos 64. E não na primeira tentativa. Foi na quinta. Ela simplesmente não desistiu. E olha que teve motivos para isto. O desgaste físico, as dificuldades e os perigos são bem pontuados no filme. Tem hora que dá vontade de entrar lá e falar com ela: “Chega. Você já fez muito. Você não precisa disso”. Mas a narrativa nos mostra que ela precisava. E, ela chega a pontuar para sua treinadora e grande amiga (Jodie Foster): “Você tem que ficar em paz com a possibilidade da minha morte”. Ela preferia correr todos os riscos a não completar a travessia,

Nyad é uma heroína da vida real cujos superpoderes são foco, disciplina e obstinação, além da capacidade de montar um bom time. Ao conquistar a façanha a que se propôs, Diana deixou três recados para o público que a esperava na praia: Nunca desistam; nunca somos velhos demais para realizar sonhos; e, que, apesar  daquela travessia parecer um esporte solitário, não somos nada sem uma equipe. Como tudo na vida, não estamos sozinhos nas nossas realizações. E uma conquista sempre envolve mais de um. Que bom que é assim.

terça-feira, 2 de abril de 2024

Anatomia de uma Queda




Anatomia de uma Queda é um filme sobre um fato ao qual não temos acesso a todas as informações. A diretora e roteirista francesa Justine Triet não nos esclarece e somos submetidos à resolução do caso por meio das investigações e depoimentos. Portanto, cabe a nós tirarmos nossas conclusões. Justine tira de nós a vantagem de termos visto o que os investigadores não viram e nos torna um deles.

Vencedor do Oscar de melhor roteiro original, o filme narra a história de uma família que mora em uma casa isolada nos Alpes franceses. Lá, convivem Sandra (Sandra Hüller), uma bem-sucedida escritora alemã, Samuel (Samuel Maleski), seu marido francês e Daniel (Milo Machado), o filho de 11 anos do casal; que tem deficiência visual. Samuel é encontrado morto, após uma queda. A polícia passa a tratar o caso como um suposto homicídio. Sandra se torna a principal suspeita. A única testemunha, além da própria suspeita, é Daniel.

Apesar de não vermos a cena da queda, assistimos a todo o escrutínio do fato, desde a análise meticulosa do legista até a reconstrução da queda com a presença do filho e de Sandra, que deve inclusive repetir os diálogos que teve com o marido pouco antes de sua morte.

O que vemos é uma leal referência ao rigor da lei e a um trabalho sério e meticuloso de investigação. O termo anatomia é derivado do grego ana, que significa “partes”, e tomei, que significa “cortar”. E é isto que se faz naquela investigação. Analisa-se cada parte para que se consiga chegar o mais perto possível da verdade.  Com ritmo e intensidade, o filme nos prende à trama de forma bastante eficiente

A melhor estratégia de defesa para Sandra é a tese do suicídio de Samuel. A queda é improvável, a morte é suspeita; e Sandra, uma pessoa controversa. Para uma mulher. Se os papéis fossem opostos, talvez, não estranhariam tanto certas atitudes dela ao longo da relação. Porque o casamento também passa por uma devassa anatômica no processo. Poucas relações iriam passar ilesas pelo promotor que assume o caso.

Podemos dizer que, no filme, temos um ponto de vista neutro, que seria o do filho, única pessoa presente, além da mãe, que é suspeita. Seu depoimento é protegido por uma representante da lei que o acompanha o tempo todo antes do julgamento. Ela explica para ele “A lei não é sua amiga. Porque ela é igual para todos”.  E, Daniel replica que o tipo de coisa que ele iria contar ele só contaria para amigos. É um terreno incerto no qual um filho, que também não testemunhou tudo, vai depor no julgamento da mãe.

É fato que nunca saberemos o que realmente aconteceu naquela queda. Muita gente vai sair com a certeza de que aconteceu de um jeito e muitos outros sairão com a convicção que foi de outro. Vale demais o debate e a certeza de que a gente convive mesmo é com a dúvida.

domingo, 3 de março de 2024

Maestro

Maestro é uma cinebiografia do músico Leonard Bernstein, que retrata o complexo romance entre o maestro Bernstein (Bradley Cooper) e Felicia Montealegre (Carey Mulligan). Estrelado e dirigido por Cooper, o filme foi indicado a 7 Oscars em 2024 nas categorias melhor filme, melhor ator (Cooper), melhor atriz (Mulligan), melhor roteiro original, melhor som, melhor maquiagem e cabelo e melhor fotografia.
No início, assistimos à Bernstein já idoso ao piano sendo filmado por uma equipe de produção em meio a uma entrevista. Em certo momento, o jornalista pergunta “Você sente falta dela?” e Leonard responde: “Muito”. E comenta: “Eu a carrego bastante comigo. Eu sempre a vejo no jardim trabalhando. Nossos filhos ficam com inveja porque nunca a veem”.
O filme, então, volta ao passado para nos explicar quem é ela. Ela é Felícia Montealegre, estrela da Broadway. a quem Leonard conheceu no início da fama. Acompanhamos como os dois se conheceram, se envolveram e entendemos o motivo da pergunta do jornalista e, principalmente, da resposta de Bernstein. Aquele encontro foi para sempre. Em certo momento, Leonard descreve: “Você tem uma carreira que exige versatilidade para interpretar tantas personagens. Minha conclusão é que você, minha querida, é muito parecida comigo. Você teve que pegar todos os pedacinhos de você espalhados por esses variados cenários e criar a pessoa autêntica que está diante de mim”.
Leonard tinha várias nuances, como a música. Talvez, por isto a compreendesse tão bem. Vivia como maestro e compositor, homossexual e apaixonado por Felicia, judeu e artista em Nova York. Ele era muitos e se questionava: “O mundo quer que a gente seja uma pessoa só. E isto é deplorável”.
Não à toa, um professor diz a ele “você pode ser o primeiro grande maestro americano, mas, para isso, terá que conduzir sua vida.” E é esta a condução principal que o personagem busca realizar na história. Algumas transições foram montadas justamente assim: a vida particular e a artística se atravessando. Em um momento eles estão em um jardim; no outro, em um teatro. Não são vidas paralelas, são intricadas. Não dá para separar.
O problema desta condução é que ela envolvia outras pessoas que, na maioria das vezes, tinham um caminho mais reto. Neste caso, as nuances de Leonard podiam magoar. E o fato de provocar esta mágoa também feria Leonard.
Acompanhamos esta condução nem sempre fácil, nem sempre feliz, mas bonita, carregada de amor. E ficamos, ao final, com a compreensão de Felicia, quando afirma: “A gente só precisa ser sensível com os outros. Ser gentil”. Se seguirmos nesta toada, já seremos bons condutores neste grande teatro da vida.  

domingo, 31 de dezembro de 2023

Oppenheimer



 Em certo momento do filme Oppenheimer, o físico traduz o seguinte trecho do sânscrito: “E agora me tornei a morte. A destruidora de mundos.”. Em outro, alguém comenta: “A bomba não foi o último ato da segunda guerra, mas o primeiro da guerra fria.”.

O filme sobre o pai da bomba atômica nos envolve de forma eficiente numa narrativa sobre o cientista que amava a física quântica e queria, acima de tudo, revolucioná-la. E que, ao perceber o que ele podia ter desencadeado, militou a favor do controle da corrida armamentista na Guerra Fria e acabou sendo acusado de espião soviético na era McCarthy.

Acompanhamos toda esta trajetória no longa. E concluímos que a bomba atômica acabaria surgindo de um lado ou do outro da Guerra; que o homem por trás dela era genial e obstinado, mas não era o proprietário daquela arma; e que, principalmente, não previu todas as consequências de sua invenção que, ao final, resultaram em mundiais e definitivas.

Oppenheimer (Cillian Murphy) era uma figura polêmica, Coronel Groover (Matt Damon), ao convidá-lo para dirigir o projeto atômico, descreve: “Você é diletante, mulherengo, suspeito de comunismo, teatral, neurótico”. E o cientista pergunta: “E genial?”. O coronel comenta: “Genialidade é comum no seu meio”. O que não era tão comum era um contraponto ético em um meio tão científico e teórico. Nesta indefinição ética, o físico ouvia coisas como: “A Guerra não acabará. Os japoneses não desistirão. A bomba salvará vidas.”. Fato é que o físico ficou à frente de um projeto no qual foram investidos 2 bilhões de dólares, 4.000 pessoas, 3 anos de dedicação, muita expectativa e pressão.

O filme é entremeado de flashbacks, enquanto acompanhamos o depoimento do físico à audiência de Segurança da Comissão de Energia Atômica dos EUA em 1954 e também o de Strauss (Robert Downey Jr.) ao senado americano algum tempo depois. A partir destes depoimentos, montamos a narrativa e o contexto por trás da invenção da bomba. Em uma palestra pré Segunda Guerra, vemos o físico dinamarquês Niels Bohr comentar: “Física Quântica não é um passo à frente. É uma nova maneira de entender a realidade. E nem todos aceitam.”. A física radical de Oppenheimer era abstrata, controversa, revolucionária e surgiu em um momento definitivo da história mundial.

No livro que deu origem ao filme, “Oppenheimer: O triunfo e a tragédia do Prometeu americano” de Bird, Kai, compara-se o cientista ao mito Prometeu que roubou o fogo dos Deuses e o entregou à humanidade. Prometeu foi seriamente castigado. Oppenheimer também. Ao experimentar a prática, humanizou-se e isto tornou sua vida bem mais difícil e conflituosa. E, no fundo, a de todos nós. 


domingo, 3 de dezembro de 2023

Tia Virgínia


Tia Virgínia estreou no 51º Festival de Gramado com uma trajetória de destaque: a sessão foi a mais aplaudida da edição e, algumas vezes, o público parou para aplaudir uma cena. O filme levou 5 prêmios, incluindo Melhor Roteiro e Melhor Atriz. 

O filme começa com Virgínia (Vera Holtz) dando corda em um relógio e acertando meticulosamente seus ponteiros hora por hora. É este tempo do relógio, que ela acerta, que vamos acompanhar no desenrolar de um dia dentro da casa em que ela vive com a mãe inválida. 

É dia 24 de dezembro e ela aguarda as irmãs que moram fora e estão vindo para a ceia de Natal. A cuidadora não foi trabalhar e Virgínia inicia a árdua rotina de cuidados com a mãe, enquanto espera, com certa ansiedade, o restante da família chegar. A rotina da casa parece ser bem parecida todos dos dias. E, nós, como espectadores, não saímos dela. Ficamos ali o tempo todo.

Com a chegada das irmãs e de dois sobrinhos, todos os personagens passam a conviver e trocar informações com as quais a gente monta uma dinâmica familiar que revela focos de tensões entre os personagens. Como em praticamente todas as famílias, o encontro de Natal não é assim um momento tão acolhedor como, a princípio, pareceria ser.

Logo que chega, Valquíria (Louise Cardoso) elogia a forma como a irmã cuida da casa. Mas, 10 minutos depois, ela troca os móveis de lugar, sem nem consultar Virgínia, que, afinal, mora ali. Vanda (Arlete Salles), ao entrar, começa a lembrar-se do pai e a ficar emotiva, mas logo é confrontada com o fato de que não compareceu ao seu enterro. São cobranças guardadas, ressentimentos antigos, que, naquele ambiente nostálgico, e, de certo modo, claustrofóbico por carregar tantas lembranças, encontram um ambiente fértil para aflorarem.

Em muitos momentos, identificamos algumas situações com nossa própria família e chegamos a achar graça. Mas, no fundo, incomodamo-nos com a manipulação em cima de Virgínia que, em tese, deve se sentir grata por morar naquela casa de graça e cuidar da mãe. As irmãs chegam a questionar os gastos; os quais têm achado muito altos.  

O filme surpreende com seu desfecho, de muitas formas, libertador e revolucionário. E nós saímos com a sensação de que temos que olhar mais de perto para as "Tias Virgínias" de nossa família. Elas possuem aspirações e interesses que não devem ser negligenciados. 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Air: A História por trás da logo

 


O filme Air: a história por trás do logo conta uma história de sucesso de posicionamento de marca e estratégia. É curioso porque conhecemos tanto a marca, quanto o nome por trás dela, mas poucos conhecem a história que o filme narra. E, para os cinéfilos, traz uma atração especial, já que temos Ben Affleck e Matt Damon na produção. Os amigos, que estrearam juntos em Gênio Indomável, venceram o Oscar 1997 de roteiro original pelo filme. É gratificante vê-los juntos. A sintonia transparece em cena. Além deles, no elenco, estão Viola Davis, Jason Bateman, Marlon Wayans, Chris Messina e Chris Tucker.

Dirigido por Ben Affleck, Air conta a história real de como Sonny Vaccaro (Matt Damon), olheiro da Nike nos campeonatos regionais de basquete, prospectam o novato Michael Jordan e criam uma parceria que revoluciona o mundo dos esportes e do marketing esportivo.

Em 1984, a Nike era a marca campeã em vendas de tênis de corridas, mas, no basquete, estava em 3º lugar (54% de participação era da Converse; 29%, da Adidas e 17%, da Nike). O setor da empresa dedicado ao esporte estava a ponto de ser desligado e tinha um orçamento bem limitado para prospecção de jogadores que promovessem a marca no basquete. Naquele ano, eles tinham U$ 250.000 para investir em 3 atletas. E Jordan estava sendo sondado pelas três principais marcas do mercado.

Sonny viu algo no jogador e resolveu que seria ele ou... ele. Assim, propôs que aquele orçamento para 3 atletas fosse oferecido apenas ao Michael. E se comprometeu a conseguir o jogador para a Nike. É esta estratégia de Sonny e, em um segundo momento da Nike, para atrair o jogador, que acompanhamos no filme.

Para quem gosta de uma boa história, o filme entretém e cria interesse. Para quem gosta de casos de marketing de sucesso, o filme ensina e demonstra que o risco sempre faz parte de uma grande jogada. Para uma empresa, fica a lição de que inovação é bem mais que tecnologia. Inovar é também ousar pedir uma cláusula inédita em um contrato. Inovar é mudar de estratégia. Inovar, ao invés de automatizar, pode individualizar.

Não à toa, o slogan da Nike objetiva transmitir a ideia de não importa quem você é ou quais são seus objetivos, “basta tomar uma atitude e apenas faça (just do it)”. A Nike terminou aquele ano com U$162 milhões de vendas no tênis da marca Air Jordan e recentemente a média é de U$ 4 bilhões em vendas anuais.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Assista-me: Elis & Tom, Só tinha que ser com você

 

“Elis & Tom, só tinha que ser você” é um documentário em cartaz nos cinemas sobre os bastidores da gravação do disco lançado em 1974 por Antônio Carlos Jobim e Elis Regina pela gravadora Polygram.  As gravações foram realizadas entre 22 de fevereiro e 9 de março do mesmo ano no MGM Studios de Los Angeles, Califórnia. O disco marcou o encontro de dois dos maiores nomes da música popular brasileira.

Anos antes, a cantora havia afirmado a Ronaldo Bôscoli, produtor musical e seu futuro marido: “Essa sua Bossa Nova, esse negócio de cantar para dentro, para depois sair um fiapo de voz - não é comigo não. Eu canto para fora!”. Justamente a Bossa Nova, estilo eternizado por Tom Jobim. Os dois acabaram unindo os estilos nesta gravação, em que a cantora está mais contida e doce. Nele, quem diria, Elis interpreta diversos clássicos do gênero, como "Águas de Março" (que se tornou o maior sucesso do disco), "Corcovado", "Inútil Paisagem", às vezes em dueto com Jobim, que em outros momentos apenas a acompanha no violão ou piano.

O disco foi um sucesso de vendas e de crítica e segue sendo aclamado por músicos e críticos no mundo inteiro. Assim, quase 50 anos depois de seu lançamento, um documentário sobre os bastidores desta produção acaba se ser lançado. Produzido por Roberto de Oliveira e Jom Tob Azulay, o documentário, além das cenas das gravações na época, conta com depoimentos de César Camargo Mariano, André Midani, Roberto Menescal, Nelson Motta, João Marcelo Bôscoli e Elizabeth Jobim.

Roberto de Oliveira, que era empresário de Elis Regina em 74, participou da gravação um álbum conjunto em Los Angeles. Sobre o momento, ele comenta: "Chegando lá eu percebi que eu tinha que filmar aquilo. Percebi que eu estava diante de um evento histórico." O filme passou por um tratamento de imagem e foi lançado em 4K. Com a ajuda de inteligência artificial, o diretor contou que foi possível deixar o áudio o mais limpo e claro.

É sempre bom rever e reencontrar artistas como Elis e Tom Jobim. Melhor ainda é ouvi-los e vê-los em plena ação. Aproveitei e levei a Manuela, minha filha, para assistir ao documentário comigo. Numa época acelerada de produções superficiais para redes sociais e cantores instantâneos, é sempre interessante presenciar o processo de dedicação e o esmero numa produção. Além, claro, conhecer estas canções e estilo, que devem e precisam ser relembrados e reverenciados.