terça-feira, 31 de março de 2026

Se eu tivesse pernas, eu te chutaria

 


No dia em que ia escrever este comentário, coincidentemente, uma amiga me mandou o link de uma colunista da Folha de São Paulo com o título “O que tem para jantar?  e a sobrecarga mental”. Em seu texto, Giovana Madalosso reflete sobre as tarefas mentais não computadas na rotina doméstica: “Quem costuma comprar o presente do amiguinho de escola? Quem vai atrás de novas calças de uniforme, já que as velhas estão raladas no joelho? Quem costuma participar do infernizante grupo de whatsapp da escola? “E, por aí, vai...

O filme “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” leva esta reflexão ao extremo. Isto porque, quando conhecemos Linda (Rose Byrne), ela já está em um elevado nível de esgotamento. Além da lista já grande de tarefas mentais, ela lida com uma doença grave da filha e com uma casa cujo teto literalmente desmorona. Linda está em um automático de stress que vai piorar. E não tem mais a capacidade de enxergar além daquele dia a dia caótico. Não é mais resiliente. É apenas reativa. E resistente. Mas não de um jeito bom. Talvez como um roedor, como comenta seu terapeuta (Conan O´Brien) em uma de suas conversas com Linda. 

Neste ambiente, quem assiste e, principalmente aqueles que sentem identificação, tendem a se sentir sufocados. Não à toa os ângulos adotados pela diretora Mary Bronstein contribuem para que a gente se sinta assim. São fechados. Quase sempre em close. Principalmente, de Linda. Quando ela está com mais alguém em cena, muitas vezes, a câmera fica nela, em suas reações.

A filha não é enquadrada. Só ouvimos sua voz, interagindo com a mãe. Ela tem uma doença grave. Pesa para Linda. Pesa para ela. O marido, Charles (Christian Slater), nunca está na cidade. Está apenas do outro lado do telefone. Questionando algo. Exigindo outro. Muitas vezes, Linda termina a ligação, sem que ele queira. O que ela sabe é que está ali sozinha, tentando administrar um caos e uma revolta que, se algum dia tentou disfarçar, nem tenta mais. Ela também é um caos. Seu jeito, suas atitudes, sua aparência; tudo indica uma sobrecarga que ela não mais administra. Linda sobrevive. Não tem mais a capacidade de chutar porque nem sente mais suas pernas... Sente uma incapacidade extenuante.

Em sua coluna, Giovana Madalosso escreve “Como não é física, a sobrecarga mental não costuma ser considerada, mas isso não quer dizer que não exista e não pese- pesa mais do que lavar pratos porque, muitas vezes, envolve tomadas de decisões, a ansiedade e a responsabilidade que vem junto”. Este filme consegue representar esta carga invisível de forma bastante concreta. A tendência é achar que se, aos poucos, Linda conseguir uma certa perspectiva, as coisas comecem a se resolver. Esperamos que sim. O final nos dá esta esperança. Que bom! Tanto para Linda. Quanto para nós. 

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Uma Batalha após a Outra

 


Em sua primeira aparição no filme Uma Batalha após a Outra, assistimos ao revolucionário Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) correr e ele corre em direção à câmera, numa espécie de enfrentamento que combina com suas ações. Este dinamismo será a tônica narrativa do filme. De acordo com Guilherme Jacobs no site Omelete: “o filme transporta para a tela a energia nervosa com a qual vivemos diariamente; um mix de cansaço e ansiedade que surge de existir, exatamente como sugere o título, num estado constante de lutas.
No início, assistimos a um passado de militância e ações concretas de resistência de Bob na fronteira dos EUA com o México. Lá, descobrimos que ele namora Perfídia Bervely Hills (Teyana Taylor), ainda mais revolucionária que ele. E, lá também, tem origem a obsessão do Coronel Steven L Lockjaw (Sean Penn) justamente por Perfídia.
Após conhecermos este passado dos personagens, chegamos ao presente, 16 anos depois, em que Bob tornou-se um ex revolucionário, não à toa, paranoico que vive com sua filha Willa Ferguson (Chase Infiniti) em uma espécie de programa de proteção de testemunha. Ele tem nova identidade e não é protegido pelo governo, mas pelo seu grupo revolucionário. Quando colegas buscam Willa para uma festa, Bob avisa “O que fizerem com ela, viu fazer igual com a família de vocês”. Ela esclarece: “Ele é paranoico”. Nem assim, ele consegue impedir que a filha seja capturada.  
Bob não é um herói. Mas é um homem criado para resistir. E também para o enfrentamento. Fará uma busca incansável por Willa. Ela é a única coisa que ele tem a perder. Já para o Coronel Locjaw, justamente a existência dela pode fazê-lo perder muita coisa. São duas motivações contrárias de personagens extremos que compõem um thriller satírico, exagerado e reflexivo.
Dirigido por Paul Thomas Anderson, Uma Batalha após a Outra concorre a treze categorias no Oscar 2026, entre elas melhor filme, ator e diretor. Segundo Anderson, ele teve inspiração na relação com as próprias filhas: “Espero que o filme traga otimismo. O final passa o bastão para a próxima geração, e isso me deixa esperançoso.”. Quem sabe, na próxima batalha, os resultados sejam mais duradouros? Quem sabe um dia, nem seja preciso batalhar tanto?